10 principais indicadores de desempenho da construção civil

Giseli Barbosa Anversa

Giseli Barbosa Anversa

Engenheira Civil, é Lead Product Manager do Sienge, atuando no desenvolvimento de ações para impulsionar o desempenho de empresas da Indústria da Construção.

5 de maio 2021

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Os indicadores de desempenho são importantes em qualquer atividade econômica, mas são muito mais importantes ainda na construção civil. Afinal, é um dos setores mais competitivos que pode haver, com desafios de gestão enormes para os empreendedores.

Num setor que, normalmente, já sofre com as instabilidades do mercado, a situação da pandemia da Covid-19 tornou mais necessária do que nunca a busca do máximo de eficiência nos negócios. 

Nesse sentido, os indicadores de desempenho são ferramentas essenciais para avaliação do andamento dos processos empresariais, do seu alinhamento com as metas definidas no planejamento estratégico. E para apontar possíveis mudanças de rumo que sejam necessárias, com a devida urgência.

Então, é a análise de desempenho, medindo, quantificando, comparando resultados, em espaços determinados de tempo, que vai apontar onde a organização está se saindo melhor e como pode se destacar da concorrência.

Ao mesmo tempo, os indicadores apontam os gargalos, os pontos fora da curva, que comprometem a produtividade, a eficiência e a competitividade da construtora ou incorporadora. 

Quem quer se estabelecer e vencer neste mercado, precisa conhecer e adotar indicadores de desempenho, pelo menos os considerados mais importantes. E são esses que você vai conhecer, prosseguindo a leitura. 

Tipos de indicadores de desempenho

Já dizia quem é considerado o pai da administração moderna, Peter Drucker:

O que pode ser medido, pode ser melhorado.

 

Ou seja, se você quer fazer sua construtora evoluir e decolar no mercado, precisa medir, quantificar, datar… Enfim, criar bancos de dados que vão ser checados, confrontados e avaliados periodicamente.

Eles devem ser agrupados por categorias específicas, que compõem os indicadores necessários para o raio-x da sua performance empresarial. De uma maneira geral, eles são classificados em quatro tipos básicos.

Tipos de indicadores de desempenhoIndicadores estratégicos

Informam o quanto a organização se encontra alinhada na direção da sua visão de negócio.

Refletem o seu desempenho em relação aos fatores mais críticos para o êxito.

Indicadores de produtividade e eficiência

Medem a proporção de recursos consumidos com relação às saídas dos processos.

Devem andar lado a lado com os indicadores de qualidade.

Indicadores de qualidade (eficácia)

Focam as medidas de satisfação dos clientes e as características do produto/serviço;

Medem como o produto ou serviço é percebido pelos usuários e a capacidade do processo em atender os requisitos desses usuários.

Indicadores de capacidade

Medem a capacidade de resposta de um processo através da relação entre saídas produzidas por unidade de tempo.

Usos dos indicadores de desempenho

Todos os indicadores que forem adotados na sua organização precisam ser quantificáveis, confiáveis e medidos de maneira contínua. 

Dessa maneira, adotados com critério e persistência, você vai ter um leque considerável de usos para eles, a fim de que se tornem realmente úteis para alcançar seus objetivos.

Você pode ver alguns exemplos bem práticos da utilização dos indicadores:

  • No planejamento estratégico – para ajudar a definir com clareza a missão e os objetivos da sua empresa, a curto, médio e longo prazo.
  • Na montagem dos orçamentos – como auxiliar na alocação mais eficiente dos recursos disponíveis.
  • Na avaliação dos resultados – para medir o que realmente foi alcançado em relação aos objetivos traçados no seu planejamento.
  • No trabalho de marketing e relações públicas – ajudam a comunicar eficientemente o valor da sua organização para o mercado.
  • Na gestão da qualidade – servem para medir a satisfação dos clientes e avaliar a suas capacidade de melhorá-la.

Dificuldades de implementação dos indicadores

Apesar de ninguém contestar sua importância, a implementação dos indicadores de performance na construção civil ainda está longe da realidade de muitas empresas, inclusive grandes construtoras. 

Sobre isso, a engenheira e pesquisadora Dra. Dayana Bastos Costa ressalta que o uso de indicadores não é sistemático na construção civil. 

o uso de indicadores de desempenho não é sistemático na construção civil
Onde eles existem, diz ela, predominam os indicadores financeiros e as construtoras têm dificuldades em identificar os indicadores mais importantes da empresa, bem como seus vínculos com as estratégias. 

Neste contexto, as decisões dos gestores são muito mais baseadas na intuição e no senso comum do que em dados objetivos, com todos os riscos que isso implica. 

Ela aponta as principais barreiras para a implementação dos indicadores de desempenho:

  1. A resistência das pessoas para a coleta, processamento e análise dos dados dos indicadores e também a sua inclusão na rotina organizacional.
  2. O uso de um único indicador, o que dificulta a identificação de problemas e não estimula a visão sistêmica.
  3. O excesso de indicadores, o que dificulta o entendimento do que deve ser analisado e gasta demasiado recursos.
  4. O uso de medidas orientadas ao passado ocasiona desmotivação das pessoas com o processo de medição.
  5. Tempo demasiado entre coleta e análise dos dados.
  6. A centralização do processo de medição e o comportamento gerencial para tomada de decisão, que não favorecem o uso dos indicadores.

Por isso, os indicadores devem ter como características recomendáveis, entre outras, a sua simplicidade, para que sejam de fácil compreensão, e o baixo custo, de preferência.

Também precisam ser acessíveis, de fácil obtenção, estar bem documentados e fornecer informações realmente relevantes, que permitam a análise e a tomada de decisão com segurança pelos gestores.

Principais indicadores de desempenho

Bem, você já deve estar achando que chegou a hora de vermos logo exemplos práticos de indicadores, que possa adotar na sua organização e ter em mãos uma grande ferramenta de gestão.

Vamos a eles então, aos principais indicadores de desempenho, aqueles que podem fazer uma grande diferença no sucesso dos seus negócios.

1. Retorno sobre o investimento (ROI)

O gestor pode usar como referência de indicador de desempenho financeiro o retorno sobre o investimento (ROI), que significa a relação entre o lucro líquido e o custo do investimento resultante da aplicação de recursos.

Como medida de desempenho, o ROI, é usado para avaliar a eficiência de um investimento ou para comparar a eficiência de vários investimentos diferentes.

Para calcular o ROI, subtrai-se o ganho alcançado pelo investimento inicial. 

Depois, esse resultado é dividido pelo investimento inicial. 

ROI = (Ganho obtido – Investimento inicial) / Investimento inicial.

Esse resultado ajuda a planejar os próximos empreendimentos, definindo o que é necessário investir, cortar, ajustar orçamentos, para garantir um ROI mais favorável.

2. Fluxo de caixa

Outro indicador financeiro fundamental é o fluxo de caixa. Ele deve expressar a consolidação das entradas e saídas financeiras da empresa e assim mostrar a necessidade de aumento de receitas ou redução de despesas.

Um fluxo de caixa bem administrado traz como principais vantagens:

  • Antecipar possíveis situações críticas ao negócio, como pagamentos adiante que precisam ser provisionados ou renegociados com antecedência.
  • Facilitar o planejamento da empresa, tais como contratações, dispensas, encomendas de material, investimentos.
  • Evitar problemas com fornecedores, por falta de pagamentos e atrasos desnecessários.
  • Melhor identificação de encargos e despesas excepcionais da folha de pagamentos.
  • Manter os tributos em dia e evitar situações desagradáveis com o fisco por falta de previsão.
  • Garantir que os processos internos estão andando corretamente,  pois se está tudo ajustado o fluxo de caixa também deverá estar e vice-versa.
  • Estar preparado e organizado para os imprevistos, com um bom fluxo de caixa é mais fácil passar por situações difíceis.

3. Segurança no trabalho

É um dos indicadores mais importantes, indispensável em qualquer obra, visto que o Brasil, infelizmente, está em quarto lugar no ranking mundial de acidentes de trabalho na construção civil. 

Os controles devem levar em conta indicadores como o número de acidentes próprios, acidentes de terceiros, autuações do órgão fiscalizador, frequência de falta de EPIs, entre outros.

Manter este monitoramento rigorosamente em dia, ficar atento a qualquer ponto fora da curva, por mínimo que seja, ajuda a controlar e prevenir situações de risco. Além de ser um forte indicador de responsabilidade e preocupação da empresa para com seus colaboradores.

4. Desperdícios e perdas

Os desperdícios e perdas estão entre os maiores problemas do setor. Empresas desatentas a este item comprometem a sustentabilidade dos empreendimentos, um dos  princípios básicos da construção civil de hoje, e acumulam prejuízos.

Entre os indicadores de desperdícios e perdas, podem ser observados os seguintes:

  • Percentual de material adquirido em relação à quantidade teoricamente necessária. 
  • Espessura média de revestimentos de argamassa. 
  • Tempo de rotação de estoques. 
  • Percentual de tempos improdutivos em relação ao tempo total. 
  • Horas-homem gastas em retrabalho em relação ao consumo total.  

Neste quesito, sugiro que veja o Quadro de Indicadores de Desperdício na Construção, que pode ser baixado gratuitamente no link. 

Quadro de Indicadores de Desperdício na Construção do Sienge

Com esta planilha você vai saber o nível de desperdício geral e também obter informações sobre cada tipo de indicador, inclusive perdas relacionadas ao desempenho da mão de obra.

5. Produtividade

Para calcular este indicador, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) lançou um manual explicando o conceito e as formas de cálculo de produtividade

É preciso fazer o cálculo da produtividade da mão-de-obra e consumo unitário de materiais. Sua fórmula básica é:

Quanto ao indicador adotado para a mensuração da produtividade da mão-de-obra, ele se denomina razão unitária de produção (RUP), que é calculado da seguinte forma:

No caso do da produtividade de materiais, utiliza-se o indicador CUM, que significa Consumo Unitário de Materiais: 

6. Qualidade das obras

A qualidade das obras pode ser medida de muitas formas, mas basicamente deve-se levar em conta a conformidade do empreendimento com as especificações técnicas das normas regulamentadoras. 

Além dos defeitos mais óbvios que são verificados durante a construção, exigindo retrabalho, é preciso atenção para os problemas que surgem após a conclusão das obras. 

Estruturas e acabamentos costumam ser os quesitos mais avaliados em relação à qualidade, bem como a resposta dos materiais à obra em si e sua posterior utilização pelos clientes.

A medição sistemática e detalhada da quantidade de defeitos, apontando quais são, o custo de sua correção em tempo e recursos, vai lhe dar uma forte indicação de melhorias que são urgentes nos seus processos. 

Servirá ainda para avaliar a qualidade da sua mão-de-obra e dos insumos que está utilizando.

Detectando os pontos críticos e favoráveis da sua empresa nessa área, você estará  pronto para entregar um produto cada vez melhor e deixar ainda mais satisfeita a sua clientela.

7. Satisfação dos clientes

A propósito, cultive o hábito de medir a satisfação dos seus clientes, a cada obra, a cada venda. Assim você vai saber como eles percebem seus produtos, como avaliam o trabalho da sua equipe, o grau de confiabilidade e indicativos da possibilidade de novos negócios com essa clientela. 

Acreditar nesta ferramenta para saber as suas expectativas iniciais e como se sentem ao final da jornada de venda, sempre vale a pena. Vai lhe dar os ajustes necessários para aperfeiçoar o seu produto, seus processos e sua relação com o mercado.

O Net Promoter Score (NPS) é uma pesquisa bem rápida que a empresa pode fazer com os clientes, através de qualquer canal de comunicação, com apenas uma pergunta:

“De 0 a 10, qual a chance de você recomendar nossos serviços para um conhecido?”

Cada nota significa o seguinte:

0 a 6 – detratores: de modo geral, a vida dessas pessoas piorou depois da compra. Não gostam da empresa e dificilmente fariam negócios com ela de novo.

7 a 8 – neutros: compram o que acham necessário, sem qualquer apego ou lealdade à empresa.

9 a 10 – promotores: são os que tiveram maior melhora de vida depois da compra. São entusiastas da empresa e podem recomendar o serviço a várias pessoas.

Outras questões complementares podem detalhar o que eles mais aprovam ou desaprovam em relação aos seus empreendimentos.

8. Satisfação dos colaboradores

Não resta a menor dúvida de que trabalhadores satisfeitos desempenham suas funções com mais motivação e têm maior produtividade, não  é mesmo? Por isso, é importante manter uma espécie de termômetro para avaliar a satisfação dos colaboradores e estar atento a fatores externos que possam causar oscilações no seu rendimento. 

É o caso da pandemia, que está abalando o mundo inteiro e certamente pode se refletir em preocupações, temores, que acabam por afetar o local de trabalho. 

Nesta hora, é fundamental que ninguém se sinta desamparado, que saibam que a empresa está preocupada com a saúde e o bem estar de todos e tomando todas as providências necessárias neste sentido.

9. Prazos 

O cumprimento dos prazos é um dos dramas da construção civil e as dificuldades em cumpri-los são bem conhecidas, numa atividade tão sujeita a imprevistos. Entre elas, as intempéries e problemas com o fornecimento de matérias-primas, como está acontecendo agora no País. 

Mas esta é mais uma das situações onde é possível medir e, medindo, é possível melhorar. Manter o controle do cronograma de obra, de maneira a identificar as etapas onde costumam acontecer mais atrasos, é a melhor maneira de garantir os prazos em dia. 

Você pode anotar nas suas tabelas, por exemplo, o cumprimento das metas semanais, o avanço físico e os percentuais concluídos por atividade no canteiro. Bem como as compras no prazo ou fora dele, tempos de uso e inatividade por defeito dos equipamentos mais importantes. 

Uma empresa que costuma cumprir seus prazos, com certeza, ganha muitos pontos em seu conceito junto ao mercado.

10. Vendas

Aqui se trata não só de avaliar se houve vendas ou não, mas também o tempo transcorrido desde o início do lançamento do produto até atingir as metas.

Leve em conta todo o gasto necessário, inclusive a publicidade, para a avaliação do custo/benefício de cada negociação.

Indicadores de desempenho de eficácia comprovada

Recentemente, o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, declarou que o setor deve continuar passando por dificuldades bastante sérias no futuro próximo. Muito por conta da falta de insumos e a elevação absurda dos seus custos. 

Neste cenário, é urgente todo esforço possível no sentido de ganhar escalas de eficiência e produtividade nas empresas. E uma das medidas mais viáveis e possíveis é verificar onde a organização pode estar falhando, seus principais gargalos e seus maiores potenciais de crescimento.

É preciso adotar os indicadores de eficácia comprovada e criar seus próprios índices também. Nesta mesma direção, padronizar a coleta de dados e criar um setor com pessoas encarregadas de analisá-los.

Por fim, estabelecer a cultura de que os dados têm uma função, ou seja, sua leitura deve fornecer um diagnóstico preciso a partir do qual serão tomadas as providências que surgirem como necessárias. O reflexo disso no canteiro de obras e nos resultados da sua organização certamente aparecerá, como aparece para todos que adotam essa prática.

Espero que nosso artigo tenha sido útil para você. Agora, deixe sua opinião, por favor, e compartilhe com seus amigos, sócios, colaboradores, pode ser útil para eles também.

Obrigado pela leitura e até o próximo artigo.

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