Construção civil em 2020: Os principais marcos do ano até agora

Bruno Loturco

Bruno Loturco

Jornalista
15 anos de experiência em produção de conteúdo para o mercado imobiliário e o setor de construção civil

16 de outubro 2020

Responsável por cerca de 7% do PIB brasileiro, não é à toa que o setor da construção está sempre rodeado de expectativas com relação ao seu desempenho. Em 2020, isso não foi diferente, embora o sentimento em torno da expectativa tenha mudado significativamente ao longo do ano.

Até antes da pandemia pelo Coronavírus se alastrar pelo mundo e atingir em cheio o Brasil, as fichas depositadas apostavam na construção civil em 2020 como um motor extra imprescindível para promover um forte crescimento da economia nacional. O País passava por uma série de reformas que visavam a melhorar sua saúde fiscal e, assim, reduzir custos e aumentar a capacidade de investimentos.

Depois que a pandemia levou ao isolamento e, consequentemente, à crise econômica, o sentimento em torno da construção civil em 2020 passou a ser de esperança. Especialmente porque logo após a determinação pelo isolamento social veio o decreto presidencial que colocou a construção civil no patamar de atividade essencial. Ou seja, cujas atividades deveriam ser mantidas mesmo durante a pandemia.

Esse cenário é responsável direto pelo primeiro ponto de destaque da construção civil em 2020 no Brasil.

Construção civil em 2020: Desempenho acima da média nacional

Como resultado da manutenção de suas atividades, a construção civil, com especial destaque para o segmento imobiliário, ajudou a segurar o desempenho do PIB para que a forte queda, a maior da história, não fosse ainda maior. No segundo trimestre de 2020 o PIB despencou 11,4% ante o mesmo período do ano anterior.

Não que o mercado imobiliário tenha passado ileso pela pior fase da pandemia, mas a queda de apenas 2,2% no volume de vendas entre o primeiro semestre de 2019 e o mesmo período em 2020 foi encarada como estabilidade pelos analistas setoriais.

Além disso, a expectativa é de que os lançamentos, que sofreram forte queda no primeiro semestre, sejam retomados até o final do ano e começo de 2021, já que 70% dos empresários afirma não ter cancelado, mas apenas adiado o lançamento.

Dessa maneira, a expectativa é que a recuperação do setor seja em “V”. Ou seja, que o fundo do vale seja superado rapidamente e seguido de forte aceleração rumo ao crescimento.

Indo mais a fundo neste ponto, a manutenção da atividade nos canteiros de obras ajudou, mas o fator mais relevante para a estabilidade nas vendas foi outro ponto de destaque da construção civil em 2020.

Redução das taxas de juros imobiliários

Durante a pandemia, a Selic atingiu o nível de 2% ao ano, o menor da história.

A taxa básica de juros brasileira, a Selic, já vinha sendo reduzida consistentemente pelo Banco Central e atingiu o nível de 2% ao ano, o menor da história, durante a pandemia. A relação entre a Selic e os juros do financiamento imobiliário não é direta. Ou seja, não é porque a Selic caiu que os bancos são obrigados a reduzir os juros cobrados pelo financiamento habitacional.

No entanto, a Selic indica uma tendência a ser seguida por todos os juros praticados na economia. Logo, os financiamentos imobiliários foram beneficiados dessa redução. Os principais bancos do País não apenas baixaram os juros do crédito para a compra de imóveis pelo SFH (Sistema Financeiro da Habitação), como também criaram novos produtos, com outros indexadores.

Assim, além da já tradicional TR (Taxa Referencial), surgiram produtos associados ao IPCA, por exemplo, que registra a inflação. Neste caso, a Caixa, que detém a maior fatia de clientes de financiamento imobiliário, também reduziu as taxas cobradas.

Em meados de outubro a instituição fez o terceiro corte do ano nos juros cobrados. Agora, tanto para imóveis enquadrados no SFH quanto para aqueles financiados via SFI (Sistema Financeiro de Habitação), a taxa efetiva mínima será a soma da TR mais juros de 6,75% ao ano. A taxa máxima, por outro lado, passa a ser TR+8,5% ao ano.

De acordo com estimativas da FGV, a cada 1 ponto percentual de corte nas taxas de juros, cerca de 1 milhão de famílias passam a ter capacidade de financiar um imóvel no Brasil. Não à toa, portanto, os cortes nas taxas de juros levaram a um avanço de 74,7% nos financiamentos nos oito primeiros meses de 2020 em comparação a 2019, chegando a R$ 11,7 bilhões. Os dados são da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

Por falar em poupança, este é outro ponto de destaque para a construção civil em 2020. Fonte dos recursos do SFH, a poupança bateu recordes de captação neste ano. Em setembro, a poupança já acumulava entrada líquida de R$ 123,98 bilhões.

Lançamento do programa Casa Verde e Amarela

Criado para substituir o programa Minha Casa, Minha Vida, o programa Casa Verde e Amarela tem o mesmo objetivo: reduzir o déficit de 7,7 milhões de habitações que existe no País. Então, até 2024 a meta é atender a 1,6 milhão de famílias, com investimentos da ordem de R$ 26 bilhões, a maior parte proveniente do FGTS.

Os principais diferenciais são as taxas de juros reduzidas para as regiões Norte e Nordeste, como forma de estímulo à demanda. A redução foi possível devido à alteração na regra de repasse para a Caixa, empresa que opera os financiamentos e subsídios do Programa.

No Minha Casa, Minha Vida, a instituição financeira ficava com 1% do valor do financiamento. Agora, fica com apenas 0,5%, economia que foi repassada para as taxas de juros cobradas. Assim, a redução de meio ponto percentual libera recursos suficientes para subsidiar a construção de 350 mil empreendimentos

Retomada na geração de empregos

Outro ponto de destaque para a construção diz respeito à geração de empregos. Enquanto o País ainda está com saldo negativo na geração de vagas com carteira assinada, a construção tem criado oportunidades de trabalho.

Destaque para a geração de empregos na construção civil em 2020

O Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) indicou que, em agosto, foram geradas 249.388 vagas de trabalho com carteira assinada no País. Dessas, 50.789 no setor da construção.

Evidência de que o setor tem elevado potencial para contribuir ainda mais com a geração de postos de trabalho é a relação entre emissão de alvarás de construção e a geração de vagas na cidade de São Paulo. Entre julho e setembro, a Prefeitura de São Paulo concedeu 306 alvarás para construção.

Então, o resultado é que, mesmo com a cidade tendo perdido 113 mil empregos entre janeiro e agosto, o setor da construção criou 5,4 mil vagas no município no mesmo período.

Conforme pontua o presidente da Abecip, Luiz França, é possível gerar 200 mil empregos no setor da construção apenas na capital paulista devido ao potencial de construir 75 mil imóveis por ano na cidade.

Construção na Bolsa de Valores

Mais um ponto de atenção do que de destaque, no começo do ano, a expectativa era de que os IPOs (Ofertas Públicas Iniciais) de empresas de construção movimentassem R$ 5 bilhões em 2020. Isso depois de dez anos sem que uma empresa de construção estreasse na Bolsa, desde o IPO da Direcional, em 2009, com captação de R$ 250 milhões.

Afinal, empresas como Kallas, Cury, You, Inc, Moura Debeux, Mitre e outras já acionavam a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para ofertarem suas ações a público.

A primeira a entrar na bolsa em 2020 foi a Mitre, que captou R$ 1,8 bilhão, seguida da Moura Dubeux, que alcançou R$ 1,25 bilhão. Entretanto, esta empresa viu o valor de suas ações cair 50% até setembro enquanto o valor dos papéis da Mitre caiu cerca de 25%. Alguns analistas afirmam que a desvalorização é temporária, fruto de uma oferta excessiva de empresas de um mesmo segmento.

De qualquer maneira, alguns IPOs que eram esperados para este ano, como o da incorporadora You, Inc, foram adiados ou cancelados.

Custos dos materiais

Um ponto que merece atenção é a subida de preços de materiais de construção.

Um outro ponto que merece atenção é a subida de preços de materiais de construção. Em setembro, o INCC (Índice Nacional da Construção Civil) subiu 1,44%, a maior alta desde julho de 2013. No ano, já são 4,34% de aumento, com três meses sucessivos de alta nos materiais em todos os segmentos. O custo com mão de obra, por sua vez, tem se mantido estável.

As seguidas altas têm preocupado o setor, que já solicitou ao governo medidas visando conter aumentos abusivos de preços dos insumos. Certamente, este é um ponto que também merece atenção para que a capacidade de retomada da construção não seja prejudicada por aumentos excessivos nos preços de materiais.

Conclusão

Há, certamente, muitos motivos para alimentar o otimismo com relação ao desempenho da construção civil em 2020 e, principalmente, em 2021. O setor reagiu bem à pandemia, não apenas mantendo o nível de atividade, mas dando sinais de que um crescimento bastante acentuado está a caminho.

Entretanto, para que a janela de oportunidade que se abre seja plenamente aproveitada, é importante atentar para alguns pontos que podem prejudicar a retomada do setor, como a elevação nos custos dos materiais.

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