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Perfil da Construção – Márcia Cristina, a primeira mestre de obras do Brasil

17 de abril de 2018

perfil da construção

A carioca Márcia Cristina Santos da Silva, 49 anos, é a primeira mestre de obras do Brasil.

Nesta entrevista, conheceremos um pouco de sua história de pioneirismo e liderança na Construção Civil.

Ela relatou ao blog do Sienge as dificuldades que enfrentou para exercer a profissão e os desafios apresentados às mulheres no canteiro de obras. Também falou sobre sua luta contra a desigualdade salarial e sua atuação para aumentar a presença feminina no setor.

Acompanhe!

perfil da construção

Arquivo pessoal

SIENGE – Como você aprendeu o ofício?

Meu pai sempre trabalhou em obras e continua até hoje. Quando eu era criança, chegava da escola na hora do almoço e tinha de levar a marmita para ele. Eu devia voltar logo para cuidar dos meus irmãos, mas raramente fazia isso, pois ficava olhando ele trabalhar. Assim, aos poucos, fui tomando gosto pelo ofício e aprendendo algumas coisas.

Mais tarde, precisei construir sozinha a casa onde moro até hoje. No início era um barraco de madeira, porque estava localizado em uma área de desapropriação. Só ergui uma casa de alvenaria quando obtive autorização.

Na época, éramos somente eu e uma filha pequena. Não havia ninguém para ajudar. Tive de aprender ‘na marra’. Os primeiros tijolos ficaram tortos, assim como o piso e contrapiso. Mas era melhor do que ficar no barro puro.

Eu já gostava de obras desde criança, e a necessidade me fez gostar ainda mais. Depois, decidi fazer cursos nessa área. Às vezes, eu era a única mulher na turma.

SIENGE – Como foi o início de sua vida profissional?

Comecei há 20 anos, como ajudante de obras, peneirando areia e carregando material para os pedreiros. Depois fui apontadora, liberando frentes de trabalho, e também almoxarife.

Contudo, o preconceito me levou a sair de vários empregos. Eu começava, mas era difícil permanecer devido ao modo como era tratada. Fui muito subestimada, desqualificada e desafiada pelo simples fato de ser mulher. Precisava estar constantemente provando minha capacidade.

Isso sem falar na disparidade salarial em relação aos homens que exerciam a mesma função. Eu achava isso um absurdo. A falta de oportunidades era desestimulante.

Às vezes, eu ia para o banheiro chorar. Mas dizia para mim mesma: não vou desistir!

SIENGE – De que forma sua família encarava sua escolha profissional?

Encontrei dificuldades até com meu ex-marido. Ele não aceitava meu trabalho.

Certa vez, precisei fazer um curso na área da Construção Civil escondida. Um belo dia, não aguentei mais e contei a verdade. Ele foi embora de casa. Nos separamos incontáveis vezes por causa do meu sonho de ter uma carreira no setor. E olha que quando nos conhecemos eu já trabalhava em obras.

SIENGE – Pesquisas indicam que, na Construção Civil, ainda há disparidade salarial entre homens e mulheres. Você passou por isso?

Sofri isso na pele, e procurei formas de lutar contra a desigualdade.

De 2013 a 2015, trabalhei para o Sintraconst [Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil do Município do Rio de Janeiro].  Fiscalizava as obras e sempre buscava inserir mulheres nos canteiros, exigindo estrutura para ambos os sexos.

Nessa época, viajei pelo Brasil dando palestras no seminário “Salário igual para trabalho igual”. Estive em Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo falando sobre a importância da equiparação salarial entre homens e mulheres.

perfil da construção

Arquivo pessoal

SIENGE – Quais são as vantagens de contratar mulheres nos canteiros de obras?

As mulheres são detalhistas, perfeccionistas e pontuais. São excelentes, por exemplo, em trabalhos de acabamento. Como também são muito cuidadosas, há menos desperdício de material na obra.

Além disso, deixam o ambiente  mais agradável, ‘florido’, familiar e aconchegante. Na sua presença, os homens passam a tomar mais cuidado com o comportamento e o linguajar.

SIENGE – Como você avalia a qualificação da mão de obra feminina?

Geralmente, quando o homem começa a trabalhar em obras, ele vai aprendendo na prática. Ingressa como ajudante, às vezes mal sabendo peneirar um material, e vai crescendo de acordo com seu desempenho. De ajudante passa a pedreiro, ladrilheiro… até se tornar encarregado e mestre de obras.

A mulher tem um diferencial. Ela já ingressa na obra qualificada, pois sabe que é um ambiente masculinizado, em que encontrará barreiras para crescer. Eu, por exemplo, entrei como ajudante e fui sendo promovida porque busquei adquirir conhecimento fora da obra.

Mas não falta oportunidade de aperfeiçoamento técnico, pois há instituições que oferecem cursos gratuitos. O que falta, na minha opinião, são campanhas de incentivo por parte das empresas. Os gestores precisam investir na qualificação de suas equipes. Os canteiros escola são uma boa maneira de fazer isso.

SIENGE – O que é necessário para ser uma boa mestre de obras?

Coragem. É um emprego em que você terá poucas colegas, ou nenhuma, exercendo a mesma função. Você será pioneira e precisa impor respeito, pois a presença masculina será muito maior.

O desafio é ainda mais intenso porque a mulher não exerce somente essa função. A gente sai do trabalho e ainda tem de pegar os filhos na escola ou na casa de familiares, ajudá-los no dever, fazer comida e cuidar da casa. Das 24 horas do dia, muitas vezes a mulher trabalha 18 horas.

SIENGE – Como evitar desperdício no canteiro de obras?

É difícil. Frequentemente falta cuidado e capricho por parte dos trabalhadores, o que gera retrabalho.

Uma alternativa que encontrei foi advertir os empreiteiros de que passaria a descontar o valor do material desperdiçado. Eles, por sua vez, transmitiam a informação aos funcionários.

A possibilidade de “mexer no bolso” funcionava tão bem que acabava não sendo necessário descontar valor algum.

SIENGE – Quais são as principais carências técnicas entre os trabalhadores da construção?

Na minha opinião, há carência de eletricistas e carpinteiros qualificados no mercado.

Também é difícil encontrar profissionais especializados em impermeabilização, pois faltam cursos na área.

SIENGE – É difícil supervisionar os trabalhadores no canteiro?

Como em todos os setores, há aqueles que chamo de ‘desertores’. Em uma obra, temos de supervisionar várias frentes de trabalho. Às vezes, quando você  não está por perto, alguns trabalhadores ‘somem’, principalmente quando se trata de ajudantes.

Para evitar isso, orientamos o profissional que trabalha por produção a dar uma bonificação ao ajudante, cujo salário é fixo. Assim, quanto mais produzir, mais ganhará. Isso faz com que ele não queira perder tempo. Se for preciso pegar três sacos de argamassa, ele vai querer voltar rápido para que a produção continue.

Felizmente ou infelizmente, esse tipo de motivação ajuda muito.

SIENGE – Como manter um bom ambiente de trabalho na obra?

Começamos o dia com o DDS – Diálogo Diário de Segurança. Além de orientações sobre a execução das tarefas, fazemos  uma oração. Também pronuncio algumas palavras de motivação aos colaboradores.

Esse momento é importante para fortalecer os laços de parceria e fidelidade entre as equipes. Sempre busco conscientizá-los de que somos um time.

Quando falo com os colaboradores, busco comparar a obra a uma gestação. É como um bebê que está sendo gerado, só que irá nascer daqui a um ano ou um ano e meio. E todos querem que seus bebês nasçam perfeitos e saudáveis, não é mesmo? Perceber a obra sob esse ponto de vista ajuda a humanizar nosso trabalho.

perfil da construção

Arquivo pessoal

SIENGE – Qual foi o maior desafio que você enfrentou em uma obra?

Falta de material. Na época, eu trabalhava como terceirizada para uma construtora.

Geralmente, os funcionários terceirizados são remunerados por produção de metragem. Eu estava com seis bloqueiros parados porque não havia blocos para que levantassem as paredes. Se o problema se prolongasse, além do atraso na obra, todos ficariam sem receber.

Como estávamos trabalhando para uma empresa grande, com várias obras em andamento na cidade, perguntei se não podiam deslocar um caminhão com blocos de uma obra para outra. Incomodei tanto a estagiária que ela conseguiu. 

O caminhão com o material chegou no final do dia. Mas não havia funcionários para descarregá-lo. Então, subi no veículo e, com dois trabalhadores, desfizemos os pallets e descarramos tudo. No dia seguinte, liguei para meu patrão e disse: ‘pode mandar os bloqueiros de volta!’.

Após enfrentar outros desafios como terceirizada, acabei sendo contratada como mestre de obras por essa construtora. Foi muito gratificante.

SIENGE – Você concorda que as novas tecnologias estão contribuindo para a presença de mulheres nos canteiros?

Quando comecei a trabalhar em obras, havia serviços de descarregamento de material que eram realizados de forma braçal. Tínhamos de levar tudo em baldes e sacos. Hoje, já temos as empilhadeiras skytrack, que transportam o material a grandes alturas, assim como as gruas, que ajudam a manuseá-lo.

Além disso, há materiais nos quais é só acrescentar água e já temos a massa para fazer um contrapiso ou um embolso. No passado, era preciso adicionar outros agregados às massas.

A tecnologia nos ajudou muito, não há comparação. De outra forma, o gestor ia pensar duas vezes antes de contratar mulheres. Ele poderia ponderar: “puxa, e quando tiver um caminhão para descarregar?”

Hoje isso não é mais problema. Os avanços tecnológicos criaram um nicho de oportunidades para o gênero feminino.

SIENGE – Você toma algum tipo de cuidado ao introduzir mulheres na equipe do canteiro de obras?

Quando um grupo de mulheres está iniciando, faço uma pequena reunião. Apresento-as para o grupo e, entre outras coisas, peço que os homens as tratem com o mesmo respeito com o qual gostariam que suas mães, irmãs, filhas ou esposas fossem tratadas.

Também oriento as colaboradoras a manterem um certo distanciamento, não permitindo ser chamadas por apelidos e nem se dirigindo aos colegas dessa forma. Em obra, todos costumam ter apelidos. Mas isso cria um clima de descontração e intimidade que pode ser prejudicial a elas.  

SIENGE – Fale-nos um pouco mais sobre sua atuação no Sindicato.

Em 2014, criei o Departamento Feminino no Sintraconst. Um de nossos trabalhos era buscar parcerias para qualificar mulheres na Construção Civil.

Inicialmente, as mulheres eram contratadas para limpar a obra antes de ser entregue ao cliente. Mas, às vezes, havia detalhes que precisavam de reparo, como azulejos quebrados, gesso rachado e defeitos na pintura.

Enxerguei a possibilidade de qualificar mulheres para fazer esses pequenos consertos. Conseguimos estabelecer parcerias com instituições que antes só lidavam com homens. Foi assim que muitas mulheres ingressaram no mercado.

Eu sempre convidava engenheiros e gestores de obras para as cerimônias de formatura das ‘minhas meninas’, e eles acabavam contratando algumas. Também batia de porta em porta, oferecendo o trabalho delas às empresas.

Quando eu conseguia empregar 15 mulheres em um canteiro com 100 homens, já ficava feliz.

Depois, criamos canteiros escola. Além de fazer cursos de pedreiro e ladrilheiro, os trabalhadores podiam ser alfabetizados.

Era um trabalho que me fazia tão bem! Eu me sentia tão humana, tão útil! Porém, em 2015, veio a crise e o setor da Construção Civil foi o primeiro a ser atingido. A demanda foi caindo, não tínhamos tantas obras para fiscalizar e acabei desligada do sindicato.

SIENGE – Você tem um recado para as mulheres que querem ingressar no ramo da Construção Civil?

Vá adiante. A Construção Civil é um dos ramos que oferece bons salários. Já fui garçonete, babá, vendedora e trabalhei em casa de família. Mas, em todos esses empregos, trabalhava muito e ganhava mal. Na Construção Civil, percebi a diferença salarial. Você trabalha muito, mas pode ganhar bem.

Contudo, deixo um alerta: você não pode ser muito ‘mansinha’ e delicada. É preciso ser rigorosa e impor respeito, já que o ambiente de obra ainda pode ser hostil às mulheres.

O seu diferencial deve estar na qualificação. Invista nisso, pois hoje há muitas instituições oferecendo cursos.

SIENGE – Quais  são os projetos para o futuro?

Um dia, se Deus quiser, vou abrir uma empresa de construção e reforma só com mulheres. Ainda vou realizar esse sonho!

Em breve, publicaremos nova entrevista com um profissional de destaque da Construção Civil. Não perca! 

 

Helena Dutra

  • Jornalista
 

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