Mercado da construção civil 2021: crescimento depende dos preços de insumos

Bruno Loturco

Bruno Loturco

Apaixonado pela Indústria da Construção, atua no setor desde 2002. É especialista em comunicação e acredita que a adoção de tecnologia é o único caminho possível para a transformação da cadeia da construção. Atualmente, é Coordenador de Comunicação Estratégica do Sienge.

30 de abril 2021

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O mercado da construção civil fechou o ano de 2020 com o otimismo elevado após ter registrado alguns dos melhores números de desempenho de sua história. Em 2020, houve 10% mais vendas do que em 2019. No mesmo período, a quantidade de unidades novas disponíveis para venda caiu 13%, o que indicava necessidade de lançamentos em 2021 para reposição do estoque.

O ano de 2021 começou com a expectativa de que o PIB (Produto Interno Bruto) do setor iria crescer 4% perante uma queda de 7% em 2020. Entretanto, mesmo sem a divulgação dos indicadores imobiliários do primeiro trimestre, tudo indica que os empresários do mercado da construção civil perderam o entusiasmo.

Perda de entusiasmo no mercado da construção civil

O primeiro indício é a situação financeira das empresas, levantada pela CNI (Confederação Nacional da Indústria) e que recuou 5,3 pontos no primeiro trimestre de 2021 em relação ao mesmo período de 2020 e se encontra, agora, em 4,9 pontos. Ou seja, abaixo da média histórica de 44 pontos.

Associada a isso está a preocupação dos empresários do setor com a questão dos insumos. Para 57,1% dos empresários, o maior problema atualmente enfrentado é a falta ou o alto custo das matérias primas.

O motivo é muito evidente:

No período de 12 meses encerrado em março último, o INCC-Materiais e Equipamentos, calculado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e que mede a variação nos preços da construção, acumulou alta de 28,13%. É a maior variação para o período em toda a série histórica, desde 1998.

O Sinapi também tem registrado altas significativas, com 4,84% de alta acumulada no primeiro trimestre e 14,46% em 12 meses, de março a março. 

Retomada em “V”

Conforme pontuou José Carlos Martins, presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) em live realizada pela entidade, “a retomada foi em V, mas não temos suprimentos para atender à demanda”. Com isso, a entidade defende trabalhar com o mercado exterior para suprir a carência atualmente enfrentada.

Caso contrário será difícil reverter o receio dos empresários com relação à falta de previsibilidade no comportamento dos custos e, consequentemente, o adiamento nos lançamentos. É o que mostra a Sondagem da Indústria da Construção, da CNI, que vem registrando quedas consecutivas no otimismo setorial, que agora prevê crescer apenas 2,5% em 2021.

A reboque da reversão do otimismo vem o arrefecimento na geração de empregos. Principal geradora de postos de trabalho em 2020, a construção começou 2021 gerando, em média, 44 mil vagas novas por mês. Em março, no entanto, foram apenas 25 mil vagas. Embora, isoladamente, o número não pareça ruim, ele reflete a redução na quantidade de contratações e aceleração das demissões.

Reação em cadeia

Não bastasse a preocupação crescente dentro do setor da construção, é preciso atentar para os reflexos de seu menor crescimento nos demais setores da economia. Afinal, conforme lembrou José Carlos Martins, da CBIC, a construção afeta diretamente outros 97 setores.

Com alta correlação com o PIB nacional, a construção ajuda a acelerar o crescimento na mesma medida em que provoca desaceleração em cadeia. “A expectativa futura de redução da atividade na construção preocupa também porque, devido à capilaridade que temos na economia, indica redução da própria atividade econômica do Brasil”, alerta.

Esse efeito pode ser observado no setor de saneamento que, revitalizado pelo Novo Marco Legal do Saneamento, tem visto as empresas recuarem da assinatura de contratos devido à impossibilidade de prever o comportamento futuro dos custos.

Outro alarme que soa para o mercado da construção civil e a economia como um todo foi acionado pelo Governo Federal ao anunciar um corte de 98% nos recursos destinados a obras da Faixa 1 do Programa Minha Casa Minha Vida, de R$ 1,5 bilhão para R$ 29 milhões.

A CBIC, que corre para reverter o corte junto ao Congresso Nacional, explica que a construção de 217 mil unidades habitacionais será paralisada, com risco ao emprego de 250 mil trabalhadores.

Demanda estável

O desânimo dos empresários talvez esteja relacionado não apenas ao aumento de preços, mas ao risco de não conseguir aproveitar uma oportunidade até então única na história do País. Afinal, ainda que os preços dos insumos estejam em alta e a pandemia não tenha dado sinais de acabar tão cedo, a demanda por imóveis parece permanecer em alta.

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Na Bahia, por exemplo, as vendas de imóveis no primeiro trimestre cresceram 52% em Salvador e 31% no Estado, com a comercialização de 2.188 imóveis. Em lançamentos também houve crescimento expressivo tanto na capital – crescimento de 106% – quanto no Estado – 41% mais unidades lançadas do que no mesmo período de 2020. Os dados são da Ademi (Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia).

Efeito parecido é observado no Grande ABC, na Região Metropolitana de São Paulo. Enquanto houve uma alta de 73,9% nos lançamentos na região no primeiro trimestre, o volume do estoque caiu 44,9%. Os dados são da Acigabc (Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC).

A cidade do Rio de Janeiro é outra que ajuda a reforçar a tese da demanda aquecida. Com 9.645 transações residenciais e 1.268 comerciais no primeiro trimestre de 2021, o município teve seu melhor trimestre desde 2013, conforme dados do Secovi Rio.

Financiamento imobiliário

A demanda aquecida não é um fenômeno exclusivo dessas regiões. A Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) informou que o financiamento imobiliário mais do que dobrou no primeiro trimestre, chegando à contratação de R$ 43,1 bilhões junto ao SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo).

O mês de março de 2021 registrou o maior volume nominal mensal da série histórica iniciada em 1994, com o empréstimo de R$ 18,4 bilhões. É um aumento de 47,4% em relação a fevereiro e de 17,2% na comparação com março de 2020. A alta dos últimos 12 meses também chama a atenção. Com R$ 146,8 milhões emprestados, o crescimento é de 76,1% na comparação com igual período imediatamente anterior.

Em quantidades de unidades, os valores são referentes ao financiamento de 81,9 mil imóveis nas modalidades de aquisição e construção. Em termos percentuais, esse montante representa um avanço de 61,8% em relação a fevereiro e de 219,4% em relação a março de 2020. No trimestre, foram financiados 187,6 mil imóveis, crescimento de 137,3% em relação ao mesmo período de 2020. Em 12 meses, são 535,3 mil imóveis financiados, um aumento de 70,8% em relação ao período imediatamente anterior.

Os imóveis usados também têm experimentado aumento na quantidade de transações. Conforme o Painel do Mercado Imobiliário da Kenlo, houve um aumento de 90% na quantidade de negócios realizados no País no trimestre em relação ao mesmo período de 2020.

Os dados são relativos a transações de venda e locação e referentes a 15.499 negócios.

Incorporadoras anunciam vendas em alta

As empresas do mercado imobiliário que têm capital aberto na B3 anunciaram suas prévias operacionais referentes ao primeiro trimestre do ano. E os resultados indicam demanda aquecida.

Confira os resultados:

  • JHSF: vendas contratadas cresceram 247% em relação ao primeiro trimestre de 2020, chegando a R$ 346,3 milhões. Os ganhos com vendas de lotes, por sua vez, cresceram de R$ 13,1 milhões para R$ 229,1 milhões entre o primeiro trimestre de 2021 e o mesmo período do ano anterior;
  • Mitre: vendas cresceram 145,3%, chegando a R$ 82,8 milhões, na comparação com o primeiro trimestre de 2020. Em comparação ao último trimestre do ano anterior, entretanto, as vendas caíram 70,8%;
  • Cury: vendas líquidas chegaram a R$ 590 milhões, um crescimento de 147,1% na comparação com o 1T2020 e recorde histórico da empresa;
  • Cyrela: vendas líquidas contratadas chegaram a R$ 1,031 bilhão, crescimento de 22% na comparação com o mesmo período do ano anterior e queda de 45% face ao trimestre imediatamente anterior;
  • Direcional: R$ 515 milhões em vendas líquidas, uma alta de 73% na comparação anual e queda de 1% em relação ao último trimestre de 2020;
  • Moura Dubeux: com vendas líquidas de R$ 244 milhões, teve uma alta de 273% em relação ao primeiro trimestre de 2020 e queda de 15% na comparação com o trimestre imediatamente anterior. De acordo com a empresa, foi o melhor primeiro trimestre dos últimos seis anos.

Conclusão

O mercado da construção civil brasileiro se encontra em um momento bastante peculiar. Enquanto as condições referentes à capacidade de obtenção de financiamento são favoráveis, as empresas imobiliárias se encontram incapazes de prever o comportamento futuro dos preços.

Como resultado, embora as vendas estejam aquecidas, os estoques de unidades têm diminuído devido ao adiamento de lançamentos por parte das incorporadoras. O risco é de o momento favorável à construção perder força sem que as empresas e as pessoas sejam capazes de aproveitar.

Afinal, uma das condições propícias ao aquecimento da demanda são os juros baixos de financiamento. Com a Selic a 2,75%, essa condição se mantém. No entanto, a expectativa é de que já na próxima reunião do Copom a taxa básica de juros da economia suba 0,75 ponto percentual, para 3,5% ao ano, como medida para conter o avanço da inflação. Para o final do ano, as projeções apontam para 5,5%, com revisões de crescimento do PIB nacional para baixo, chegando no máximo a 3%.

Com a perda de força do mercado imobiliário sofre toda a economia, já que o setor representa entre 5 a 6% do PIB brasileiro, é o principal gerador de empregos e representa 10% de tudo o que a economia nacional produz. Seus efeitos extrapolam o próprio setor e, para cada emprego gerado na construção, são criados outro cinco indiretos e a cada R$ 1 investidos na indústria da construção geram R$ 1,88 na economia.

Ou seja, perder a, possivelmente, melhor oportunidade da história é um risco não apenas para o setor da construção, mas para toda a economia brasileira.

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