Tratamento de Esgotos Residenciais: Panorama Nacional

Marina Nascimento Silva

Marina Nascimento Silva

Formada em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atualmente trabalha no escritório Maria Silva Engenharia.

25 de março

Esgotos residenciais: Você já parou para pensar sobre a destinação dos efluentes gerados em sua casa? A não ser que você tenha tido problemas com seus dispositivos privados ou com a coleta/tratamento público muito provavelmente a resposta será negativa.

Unidades residenciais convencionais, assim como as edificações comerciais e outras, cuja a utilização de água se dê exclusivamente para fins domésticos, geram, em consequência das atividades cotidianas como banho, descargas ou limpeza em geral, um volume de águas residuais popularmente chamadas de esgotos domésticos.

Esses dejetos não são compostos de água em sua forma pura e original, mas sim de água contaminada por resíduos sólidos e agentes patológicos diversos.

Nessa conjuntura, a coleta e tratamento dos esgotos domésticos está diretamente associada à saúde pública e também à preservação ambiental.

A contaminação de solos e águas por efluentes domésticos, além do risco direto a flora e aos corpos hídricos, também pode acarretar a proliferação de doenças variadas. Isso pode ocorrer em função do consumo das águas contaminadas, de modo direto ou ainda, por meio de alimentos em virtude de seu emprego para irrigação. O contato direto com o solo e hídricos alterados também é prejudicial.

A quarta edição do Manual de Saneamento, datada de 2015, apresenta de maneira muito completa, várias doenças relacionadas à água, detalhando as formas de transmissão e prevenção das mesmas. Quanto às doenças relacionadas ao consumo de águas contaminadas, especificamente, o manual cita: cólera, febre tifoide e hepatite infecciosa, entre outras.

Sendo o esgoto doméstico gerado a partir do consumo da água de abastecimento, nossos hábitos de consumo e os dos demais moradores de uma residência é o que define o volume de contribuição a rede pública ou sistema privado. Somos inquestionavelmente responsáveis.

Os dimensionamentos usuais, inclusive, são feitos com base num dado valor de contribuição na forma de “litros, por pessoa, por dia”. A NBR 13969  prevê valores entre 100l e 160l de esgoto, por pessoa, por dia, conforme o padrão residencial.

Os esgotos podem ser enquadrados em três grandes grupos de acordo com a sua origem, sendo divididos em: industriais, pluviais e domésticos.

Atualmente, apenas 43% dos esgotos nacionais são coletados e tratados coletivamente, enquanto 12% apresentam alguma solução individual. 18% são coletados, mas não tratados e 27% não são coletados e nem tratados.

Dados regionais dão conta de que o esgotamento sanitário pode ser considerado adequado para 65% da população da região sul, 63% dos moradores do centro-oeste, 58% dos habitantes do sudeste, 48% do nordeste e 33% do norte.

Ficou curioso para saber a situação do seu município/estado? Dados específicos, além de informações nacionais, podem ser obtidos por meio do Atlas Água e Esgoto desenvolvido pela Agência Nacional de Águas (ANA). O Atlas está disponível também na forma de aplicativo compatível com Androide e IOS e com download gratuito.

Soluções convencionais de tratamento de esgoto

No que se refere ao tratamento coletivo, temos:

• Estações de Tratamento de Esgoto (ETE’S): Os esgotos domésticos são conduzidos por meio de tubulações particulares até coletores públicos que os encaminham a centrais de tratamentos conhecidas como ETE’s. Nas Estações ocorre a descontaminação com posterior destinação da água tratada a um receptor tal como rio ou mar.

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As soluções individuais não são necessariamente caras ou ocupam grandes espaços territoriais.

Quanto aos sistemas individuais de tratamento, temos:

• Sistema Tanque Séptico – Filtro Anaeróbio – Sumidouro/Vala de infiltração: Esses três elementos promovem, respectivamente, a coleta, tratamento e condução da água tratada ao solo.

A fossa séptica, unidade inicial e estanque, atua recebendo os efluentes contaminados e promovendo a separação da parte líquida da sólida por decantação, com posterior decomposição;

O filtro anaeróbio é a unidade secundária, de fluxo ascendente, que promove a filtragem (descontaminação) dos esgotos por meio de elementos naturais como brita;

O sumidouro e as valas de infiltração diferem quanto ao formato, mas ambos destinam-se à condução do efluente já tratado ao solo.

Os tratamentos da água para descontaminação e posterior destinação podem envolver processos químicos, físicos e biológicos.

Soluções sustentáveis de tratamento de esgoto

Nos últimos anos, sistemas diferentes dos tradicionais acima mencionados vem ganhando força e se difundindo pelo país. São as wetlands e fossas verdes, alternativas sustentáveis que se assemelham quanto a utilização de vegetação natural no processo.

• Wetlands: Também conhecido como sistema alagado construído, é composto por um tanque estanque de pequena profundidade que abriga plantas aquáticas. Essas plantas atuam ativamente na remoção dos contaminantes existentes nos efluentes. Além das plantas, os tanques também podem ser preenchidos com brita, areia e outros materiais filtrantes em seu interior.

Quando destinado ao tratamento de esgotos domésticos, deve receber apenas as águas cinzas. As águas negras (de vaso sanitário) só devem sem encaminhadas após tratamento prévio, em tanque séptico, por exemplo.

Pode ser utilizado como sistema privativo unifamiliar ou mesmo coletivo.

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• Fossas Verdes: Também conhecidas como bacias de evapotranspiração são formadas por tanque impermeabilizado preenchido por material filtrante (entulho, brita, areia, etc.), solo e plantas, na camada mais superficial. As plantas são preferencialmente as bananeiras que atuam no consumo dos nutrientes dos esgotos e na transpiração da água.

Outras plantas que consumam grande quantidade de água e tenham folhas largas para transpiração também podem ser usadas.

Destinadas ao tratamento de esgotos domésticos, deve receber apenas as águas negras (de vaso sanitário). Não necessita de tubulação de saída, pois toda água é evaporada pelo solo ou transpirada pelas bananeiras através do fluxo ascendente dos esgotos.

Podem ser utilizadas como sistema privativo unifamiliar.

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Fonte: Manual de Saneamento – Funasa

• Círculo de Bananeiras: consiste em uma escavação circular onde são depositados, a partir do fundo em solo natural, brita, pequenos troncos, folhas e galhos secos. As plantas, bananeiras, são plantadas no entorno do perímetro circular da escavação, agindo no tratamento e consumo da água (absorção) com posterior transpiração.

Esse sistema atua como tratamento complementar as águas negras (de vaso sanitário) oriundas do tanque séptico ou, ainda, como destino final às águas cinzas.

Pode ser utilizado como sistema privativo unifamiliar.

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Fonte: Manual de Saneamento – Funasa

A NBR 13969, que trata dos dispositivos de tratamento complementar e destinação final dos efluentes líquidos, oriundos do tanque séptico, recomenda avaliação/amostragem periódica para avaliar a eficiência do sistema empregado.

Como podemos contribuir?

E como eu e você podemos contribuir para melhorar o atual panorama nacional quanto ao tratamento de esgotos? Abaixo algumas soluções eficientes:

• Promover sistemas individuais de tratamento quando a coleta pública não é oferecida;

• Prever, nos projetos hidrossanitários, sistemas de reuso de água;

• Quando em sistemas públicos, fazer a correta ligação das tubulações privadas na rede;

• Não encaminhar esgotos pluviais juntos aos domésticos para não acarretar sobrecarga aos elementos/ estações de tratamento;

• Reutilizar as chamadas águas cinzas, provenientes de banho, para limpezas cabíveis.

Concluímos então que, o cenário nacional quanto ao recolhimento e tratamento de esgotos residenciais ainda é muito distante do ideal. 45% dos efluentes não são tratados, acarretando grandes riscos à saúde coletiva e recursos hídricos.

O Atlas Água e Esgoto, desenvolvido pela Agência Nacional de Águas (ANA), propõe soluções a serem implantadas gradualmente ao longo dos anos, até 2035. O capital estimado é de 149.5 bilhões. O total do investimento engloba ações de coleta e tratamento de efluentes, com o intuito de ampliar as áreas adequadamente atendidas.

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Fonte: Atlas de Água e Esgoto – ANA

Investimentos públicos para mudar o atual panorama são urgentes. Esses investimentos devem ser feitos, além de diretamente em obras, em políticas de educação ambiental para conscientização quanto ao papel individual de cada cidadão.

Agora que você já sabe do seu, que tal compartilhar esse post para que mais pessoas fiquem cientes de seus papéis para mudar essa realidade?

Não esqueça que podemos e devemos fazer nossa parte a partir das contribuições individuais, como as acima citadas, e compartilhando informações que auxiliem na conscientização de todos.