Construção Civil e Pandemia: o que vem depois

Giseli Barbosa Anversa

Giseli Barbosa Anversa

Engenheira Civil, é Product Manager do Sienge, atuando no desenvolvimento de ações para impulsionar o desempenho de empresas da Indústria da Construção.

9 de abril 2020

Em novembro de 2019, diversos segmentos da Indústria da Construção apontavam para um cenário animador para o próximo ano. A estimativa para o Produto Interno Bruto era de 2,2% – um número bastante animador quando comparado aos desempenhos anteriores.

Porém, logo no fim do primeiro trimestre, o mundo todo foi surpreendido com uma situação inédita: uma pandemia, que implicou em uma redução brusca no ritmo de produção de todos os setores da economia mundial.

Rapidamente, os efeitos da COVID-19 foram sentidos no cenário econômico brasileiro.

No fim de março, o Banco Central revisou as previsões do Produto Interno Bruto. De um crescimento de 2,2%, os especialistas projetam que a economia não crescerá neste ano, isto é, um índice de crescimento do PIB nulo.

Os indicadores podem mudar nas próximas semanas, uma vez que o cenário é extremamente volátil. Porém, uma coisa é certa: este é o momento de se preparar para o cenário econômico pós-COVID-19, com ações bem estruturadas e, principalmente, decididas em conjunto.

Neste artigo, vamos te apresentar algumas ações para tornar o panorama financeiro de sua empresa mais claro, facilitando a tomada de decisões e a gestão de seu fluxo de caixa.

Fique atento, anote estas informações e se prepare com antecedência para o que vem depois dos impactos do COVID-19.

Neste momento, tenha cautela ao decidir

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Todos são unânimes ao reconhecer que a pandemia pegou a todos de surpresa pela rapidez com que o número de casos confirmados cresceu e pelos impactos causados na economia.

Em resposta a isto, o que temos visto nas últimas semanas são ações dos diversos setores da economia, reorganizando suas diretrizes a fim de encarar os novos desafios que surgirão.

Não é o momento para pânico, mas sim a hora para agir com cautela.

Um erro bastante comum em situações de adversidade é realizar um corte massivo de despesas, sem contudo, avaliar os riscos envolvidos neste corte.

Mas será que os cortes devem ser tão grandes assim?

Uma boa maneira de avaliar o otimismo ou pessimismo do setor é analisar criteriosamente os indicadores econômicos ligados à Indústria da Construção. Estes números refletem os impactos que as ações do Poder Público terão sobre a economia e o mercado, sinalizando efeitos de médio prazo que são mais seguros para análises de estratégia.

Para as ações de curto prazo, o ideal “olhar para dentro de casa”, e analisar os indicadores financeiros de sua Empresa.

Entenda os números que têm maior impacto em seu fluxo de caixa: onde estão os maiores gastos e as maiores fontes de receita?

Estes pontos devem ser a origem da reestruturação do seu plano estratégico pós-COVID-19.

Proteja seu Caixa

Por mais difícil que este momento seja, é preciso sangue frio para saber a hora certa de agir e qual ação tomar.

É fundamental priorizar as ações de contingência nos pontos de sua operação que fazem mais sentido. A lógica é simples: quando o gestor atua nos pontos de receita e despesa com maior impacto no fluxo de caixa, pequenas medidas trazem resultados mais tangíveis.

Neste sentido, a primeira medida a ser adotada é a Proteção de Caixa.

E quando falo em proteger o caixa de sua empresa, isto não quer dizer inadimplir com os compromissos assumidos anteriormente. Lembre-se que a crise é uma fase, e que após esta fase, você continuará operando e precisará do crédito junto a seus fornecedores.

O primeiro passo é relacionar todos os contratos em andamento, títulos e parcelas a pagar e fornecedores.

Na sequência, monte uma Matriz de Decisões, apoiada nas seguintes respostas:

  • Quais são os maiores contratos com fornecedores que sua empresa possui?
  • Quais são as maiores dívidas com fornecedores que sua empresa possui?
  • Quais são os contratos que não dependem do volume de obras de sua Empresa?
  • Qual o tamanho das empresas atreladas a estes contratos?

Entenda que existirão pesos diferentes, de acordo com o valor da dívida e o tamanho da empresa.

Isto significa que fornecedores de maior porte terão capacidade de absorver uma negociação. Isto já não acontece com um pequeno empreiteiro que tem um fôlego financeiro menor.

Além disso, o tempo gasto por sua equipe para negociar ou renegociar uma dívida geralmente é o mesmo, independente do valor da dívida. Então, começar pelos maiores valores a pagar pode trazer bons resultados com um número menor de negociações.

Estas ações permitirão que sua empresa tenha diferentes estratégias para renegociação e postergações de pagamento, diminuindo os casos onde inadimplência será a última saída.

Mas reforçamos: inadimplência é uma medida extrema, que gerará danos em sua operação e deve ser a última saída.

construção civil pandemia

Entenda as perspectivas de mercado de seu segmento

De maneira genérica, existem três segmentos de empresas:

  • Loteadoras;
  • Construtoras e Incorporadoras, atuantes no mercado imobiliário;
  • Construtoras, atuantes no mercado público e privado.

Para as empresas que atuam com Crédito Imobiliário – tanto no segmento de Crédito Associativo quanto no Plano Empresário – existe o forte interesse da instituição financeira de que a obra seja concluída no prazo.

Nas últimas semanas, observamos uma série de medidas dos maiores bancos, no intuito de negociar dívidas de curto prazo, para pessoas físicas e jurídicas, e assegurar os repasses ligados ao crédito imobiliário.

Vale discutir com os gerentes de sua carteira bancária as condições de pagamento que as instituições estão oferecendo, pois os bancos estão agindo preventivamente para assegurar a injeção de dinheiro no mercado imobiliário.

Existe um ponto de atenção para empresas que atuam com Construção Civil, voltadas contratos públicos e privados. Aqui estão envolvidas empresas que fazem reformas, ampliações, obras corporativas e obra públicas.

Para as empresas onde a operação está ligada ao varejo e obras corporativas, a curva de recuperação pós-COVID pode ser mais longa, uma vez que as alterações no mercado consumidor e operações das empresas podem afetar as locações, diminuindo a demanda por novos espaços.

Para as empresas atuantes no segmento público, existem boas possibilidades do Poder Público acelerar obras de infraestrutura e saneamento. Ainda em fase de discussão no Senado Federal, o Marco do Saneamento pode impulsionar o setor privado através da concessão de redes de saneamento à iniciativa privada, o que implicará na construção destas redes e de toda a estrutura de operação necessária.

Utilize todas as informações de seu ERP

Quanto mais consolidadas as informações de sua empresa estiverem em seu ERP de gestão, mais fáceis e ágeis tendem a ser as análises de cenários e as tomadas de decisão.

Percebemos que empresas que monitoram as informações do Orçamento de Obras às Obrigações Fiscais, em um fluxo contínuo de processos, possuem uma estrutura de gestão – o chamado backoffice – mais enxuto e voltado à análise.

Portanto, a redução do plano contratado para seu ERP não pode ser uma alternativa de redução de despesas. Além de perder informações já registradas, haverá sobrecarga em algumas áreas, que terão que processar em planilhas e controles paralelos, as informações que anteriormente eram consolidadas no software de gestão.

Recentemente, o Sienge liberou usuários extras gratuitos para clientes que estejam em nosso datacenter. Esta é uma forma de otimizar o trabalho remoto de sua empresa e garantir que as equipes, mesmo distantes, continuem a operacionalizar as decisões que devem ser tomadas.

melhor erp

Infelizmente, o volume de trabalho nas obras diminuiu com as ações de distanciamento social. Entretanto, esta pode ser uma oportunidade para atualizar as informações consolidadas em seu ERP de gestão, de modo a ter informações mais confiáveis.

Vale a pena dedicar uma atenção especial a:

  • Analisar as projeções de fluxo de caixa;
  • Gerenciar os recebíveis;
  • Gerenciar os compromissos de pagamento;
  • Gerenciar os contratos de compra e venda de unidades.

É fundamental registrar o histórico de transações – negociações, renegociações, aditivos e distratos. Isto é uma forma de acompanhar o comportamento da área financeira da Empresa durante a crise.

Uma outra ação salutar é a remodelagem de processos.

Modificar as rotinas e fluxos de uma empresa, em plena operação, não é uma tarefa fácil. Porém, aproveitar este momento para revisar os processos, tornando-os mais ágeis e enxutos é uma boa forma de preparar a operação os próximos meses.

Neste mesmo sentido estão envolvidos processos paralelos ou duplicados, que nunca foram implementados no ERP, e que demandam tempo e esforço dos times para compilar informações. 

Assim, tanto o ajuste de processos quanto a eliminação de processos paralelos podem melhorar a confiabilidade, e a produtividade, na geração de informações mais confiáveis.

Tenha um Plano de Ação de curto, médio e longo prazo

De posse de todas as informações operacionais e gerenciais, é hora de agir.

No atual cenário brasileiro, as ações emergenciais devem assegurar a saúde financeira de curto prazo – cerca de 90 dias, que deve ser o período mais crítico da crise pós-COVID, e embasar ações que garantirão tranquilidade nas operações de médio prazo.

Ainda é cedo para mensurar os impactos da pandemia na economia brasileira, muito embora saibamos que dificilmente as previsões de crescimento apontadas entre Janeiro e Fevereiro se concretizar.

Vale cautela e calma para decidir a melhor estratégia e, principalmente, o trabalho em parceria com Fornecedores e Colaboradores.

Lembre-se que todos estão no mesmo barco, e que a franqueza nas negociações é sempre a melhor saída.