BIM e segurança do trabalho

Bárbara Cristina Blank Garibaldi

Bárbara Cristina Blank Garibaldi

Formada em Direito e em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, trabalha como Software Developer na Softplan. Faz parte da equipe que promove o Grupo de Estudos em BIM na Softplan/Sienge.

12 de março

Desde muito antes de Cristo, já temos notícias de que o Homem se preocupa com as condições de trabalho e a saúde dos trabalhadoresPor exemplo, Aristóteles (384-322 a.C.) e Hipócrates (460-375 a.C.) estudaram sobre doenças que, naquela época, estavam afetando muitos trabalhadores das minas de ferro e estanho. 

Mas foi somente no final do século XVII, na Itália, que a segurança do trabalho ganhou força. O médico Bernardino Ramazzini (1633-1714) publicou um livro listando as principais doenças relacionadas a 50 profissões, tornando-o o “pai da medicina do trabalho”. 

Durante a Revolução Industrial (1760-1830) os números de doenças, acidentes e mortes no trabalho cresceram rapidamente, obrigando a criação de uma legislação eficiente que protegesse e assegurasse os trabalhadores. No Brasil, a Revolução Industrial ocorreu por volta de 1930, e em 1943, as leis trabalhistas foram criadas. Além disso, em 1966, fundou-se a Fundacentro, que atua até hoje na pesquisa científica e tecnológica relacionada à segurança e saúde dos trabalhadores. 

A segurança do trabalho atua na prevenção de doenças e principalmente acidentesos quais, na grande maioria, são ocasionados por fatores relacionados a máquinas, produtos e comportamentos do trabalhador. 

Podemos listar a Construção Civil como a líder no ranking de acidentes com mortes no país. Quem trabalha na construção, tem até três vezes mais probabilidade de sofrer algum tipo de acidente, sendo os principais riscos: trabalho em altura, movimentação de objetos e materiais, eletricidade e escavação (OSHA, 2018). 

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Atualmente, na esfera de regulamentação nacional voltada para o setor da construção, temos: Constituição Federal e Constituições Estaduais; Normas Técnicas da ABNT; RTPs (Recomendações Técnicas de Procedimentos); NHOs (Normas de Higiene Ocupacional); Códigos de Obras e Regulamentos Sanitários dos Estados e Municípios; entre outros. 

1.Os números no Brasil 

Em 2010, de acordo com o Anuário Estatístico do Ministério da Previdência Social, ocorreram mais de 54 mil acidentes de trabalho no canteiro de obras, sendo 36 mil classificados como “típicos”, que são as quedas de altura e movimentação de cargas, por exemplo. 

O Anuário Estatístico de 2017 registrou aproximadamente 550 mil acidentes de trabalho em todo o país, sendo 30 mil relacionados à Construção Civil. Felizmente, entre 2012 e 2017, o Brasil conseguiu reduzir em 55% os acidentes laborais nos canteiros de obras, economizando cerca de R$ 31 milhões em procedimentos hospitalares na rede pública. 

Em Santa Catarina, entre 2006 e 2015, foram registradas mais de 2.600 mortes de trabalhadores, sendo 93% dessas mortes, de homens que atuam na Construção Civil no estado. 

Por mais que exista uma grande base legislativa que assegure o trabalhador e as fiscalizações e cobranças sejam constantes, ainda há uma cultura de não utilizar equipamentos de segurança, ainda mais nas atividades informais e pequenas empreiteiras. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a informalidade na Construção Civil gira em torno de 40% no país, podendo chegar a 60% em alguns estados. Infelizmente, não há como registrar os dados em atividades informais, o que torna os números ainda maiores do que foram apresentados. 

A Dimensão 8D do BIM pode ser uma “salvação” para o canteiro de obras. 

2. Projetos e segurança: histórico 

Modelagem não é uma novidade. Ao longo dos séculos, muitos edifícios de referência não existiriam se não fossem o uso de projetos.  

Antigamente, os modelos projetados não correspondiam às obras finalizadas, assim, embora o projeto fornecesse uma visão global da obra e/ou de parte dela, ele só poderia ser parcialmente usado como apoio à construção e, uma vez que servia como um esboço, era praticamente inútil na fase pós-construção.  

O Empire State Building, um arranha-céu de 102 andares em Nova York, tem 381 metros de altura, sendo um dos edifícios mais altos do mundo. A conclusão de sua obra data do início de 1931. A equipe de projeto do Empire State Building incluiu (supostamente) um subsídio para cobrir uma morte por andar nos cálculos de custos do projeto. Em sua construção, apenas sete pessoas perderam a vida, o que na época era visto como um resultado positivo.  

Embora o conceito de modelagem não seja novo, faz-se necessário pensar em inovação para a segurança.  

Ainda que a indústria da construção esteja saturada de estratégias tradicionais de prevenção de lesões, o potencial de influenciar e prevenir acidentes na construção diminui exponencialmente à medida que o projeto avança com pesquisasAssim sendo, a maneira mais eficaz de planejar os elementos do programa de segurança ocorre nas fases de planejamento e pré-construção de um projeto.   

3. BIM aplicado à segurança

Muitas pessoas perdem suas vidas ou ficam feridas na indústria da construção a cada ano, apesar dos melhores esforços de todas as partes envolvidas. Enquanto muitos estão utilizando o BIM (Building Information Modeling) para obter ganhos de eficiência e margens de lucro aprimoradas, poucos utilizam-no com foco na saúde e segurança. Mesmo em tempos de crise econômica, a construção ainda é um dos maiores setores da indústria. E também um dos mais perigosos.  

As causas prevalecentes de acidentes e mortes no local de trabalho podem ser drasticamente reduzidas com planificação e gestão avançadas por meio do uso de ferramentas BIM.  

As tecnologias BIM ainda auxiliam no levantamento de riscos nos projetos de construção e na aplicação diária das normas e equipamentos de segurança no canteiro de obra. Além disso, possibilita o uso de itens pré-fabricados ou pré-montagens e outras abordagens chamadas de “prevenção por meio do design” (Safety Through Design).  

3.1 Prevenção por meio do design  

A prática de um conceito chamado Safety Through Design (prevenção por meio do design) baseia-se em conceitos LEAN e na melhoria contínua ampliando o uso da pré-fabricação, por meio de um ambiente controlado para reduzir a exposição dos funcionários aos riscos e aumentar a produção em geral.  

A prevenção assistida por BIM, por meio do design é um conceito de mitigação de riscos ocupacionais, projetando-os durante o projeto da obra. O uso do BIM oferece aos profissionais de segurança a oportunidade de realizar o trabalho virtualmente e identificar os principais riscos e oportunidades associados a um projeto antes do início da construção.  

A proteção contra quedas é um elemento importantíssimo gerido pelo uso de ferramentas BIM. Utiliza-se o modelo para identificar pontos de acesso e saída, aberturas e claraboias, eixos mecânicos e de elevadores, zonas de carga e demais riscos relacionados.   

O BIM também pode ser usado para determinar os sistemas de proteção de escavação. Os profissionais de segurança podem acessar o modelo e fazer medições da profundidade e dimensões da escavação. Além disso, eles direcionam a tecnologia para identificar espaços confinados no projeto e planejar o acesso a essas áreas desde o início.  

A prevenção por meio do projeto em todas as suas capacidades desempenhará um papel importante na redução da taxa de lesões e na garantia de que cada trabalhador retorne diariamente à sua família.  

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3.2 Atribuição de Responsabilidade  

Uma das razões pelas quais é difícil de se pensar em segurança é que ocorrem divergências no local de trabalho sobre de quem seria a responsabilidade de fornecer a proteção de segurança, além dos EPIs. O BIM retira tais suposições e incógnitas da equação. Ele permite que as equipes de projeto executem sequências diárias de projetos, inclusive de hora em hora, para definir com mais precisão as exposições a riscos, ainda que temporários, no local da obra.  

O BIM ainda pode ser usado para quantificar os materiais necessários para proteger a área, assim, quando se definem todas as partes e peças de proteção, como coberturas para abertura de pisos e equipamentos para prevenção de quedas. Eles podem ser elencados ainda no pré-projeto e na pré-qualificação dos principais subcontratados e parceiros comerciais.  

Dessa forma, os profissionais são treinados em um dia específico, com todos os equipamentos e peças de proteção necessários. Não há margem para a discussão sobre quem seria responsável pela segurança.  

3.3 Segurança construída  

Pode-se ainda utilizar ferramentas BIM para eliminar a construção de peças falsas. Tudo isso, para evitar montar andaimes ou estruturas adicionais, evitando desperdício de tempo, recursos e dinheiro.  

3.4. BIM e segurança alinhados ao plano de trabalho  

As informações no universo BIM vêm de uma série de fontes, como planilhas, bancos de dados, softwares de terceiros, além de ferramentas BIM para levantamento e estimativa de orçamentos.  

A grande vantagem do BIM é que ele propicia o acesso a um ambiente com inúmeras informações e formatos, fornecendo dados importantes para todas as fases de um projeto.  

Tais informações podem ser organizadas em torno de um tópico específico e, em seguida, organizadas e difundidas. Por exemplo, informações de um desenho mostrando o layout de um edifício podem ser organizadas para mostrar os perigos específicos em cada andar, eles podem ser listados em ordem de risco e um relatório e cronograma personalizados, distribuídos a cada subcontratado.  

A vantagem que a tecnologia traz é acelerar o processo de geração de relatórios. Por exemplo, agora algumas análises de risco e avaliações de segurança que antes só podiam ser realizadas visualmente, como as que abrangem o uso do espaço de trabalho e das zonas livres, agora podem ser automatizadas.  

3.5. BIM e a mitigação de riscos  

Pode-se elencar como atividades que auxiliam no aumento da segurança na construção civil:  

a) Pré-fabricação orientada a modelo e fabricação fora do local de obra: a oportunidade de fazer mais pré-fabricação de materiais fora do local de obra em um ambiente seguro e controlado. Assim, mover o trabalho para um ambiente amplo e controlado reduz bastante o risco de escorregões, tropeções, quedas e lesões. A pré-fabricação com BIM possibilita a eliminação de inúmeras incursões em escadas, fossos; várias horas de trabalho e atividades de construção ergonomicamente impróprias.  

b) Análise de riscos de segurança:a possibilidade de automatizar e verificar os critérios ou regras definidas, principalmente, por meio do uso de ferramentas de software para digitalizar rapidamente modelos BIM em busca de áreas problemáticas, como perfurações no piso e no teto, e coordenar as provisões de segurança necessárias.  

c) Coordenação do local:a aptidão para construir a obra virtualmente antes que ela de fato o seja, possibilita a exploração de diversos cenários e condições, assim, considera-se para diferentes opções de logística do local, alternativas de içamento e custo. A capacidade de coordenar o local de trabalho ainda auxilia nas investigações de acidentes e previsões de riscos. Além disso, a modelagem em BIM funcionando como maquete virtual permite às empresas trabalharem com as equipes de instalações para otimizar os espaços para tarefas de manutenção mais seguras e céleres 

d) Detecção de choque: a capacidade de identificar colisões e mitigá-las antes de serem construídas. A detecção de conflitos também considera possíveis colisões no local de obra. Com o uso da tecnologia de rastreamento e detecção, as mortes e ferimentos relacionados ao atropelamento por veículos de construção em movimento podem ser drasticamente reduzida 

e) Comunicação visual: O processo BIM permite que todas as partes interessadas visualizem como a obra pode ser melhor erigida e propicia o envolvimento de pessoas não técnicas que possam ajudar nas decisões do cliente. A comunicação visual também pode desempenhar um papel vital no treinamento de segurança do trabalhador. A capacidade de comunicar informações visualmente pode quebrar todas as barreiras linguísticas e ajudar no entendimento.  

f)Coordenação de segurança diária: engenheiros e técnicos de segurança podem acessar o modelo BIM no local de trabalho, ajudando a melhorar as inspeções e a validar se as disposições de segurança estão sendo atendidas.  

Conclusão  

A indústria da construção é uma das mais perigosas para funcionários. A prevenção por meio do design é um dos mais eficazes meios de lidar com os riscos aos trabalhadores. O conceito de prevenção por meio do design depende que os projetistas realizem uma avaliação completa dos riscos de cada componente do projeto.  

Com o desenvolvimento da metodologia BIM é possível integrar e desenvolver verificações automáticas de segurança, por meio de ferramentas BIM. Pela formalização do modelo de segurança baseado em BIM consegue-se fornecer informações automáticas e resultados objetivos, com menor consumo de tempo.  

Assim, uma estrutura integrada baseada em BIM permite incorporar segurança, pois o estágio inicial do projeto atribui a cada detalhe do objeto os recursos de segurança e requisitos técnicos. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

CBIC. Entrevista: BIM e SST em Canteiros de Obras. Disponível em: <https://cbic.org.br/relacoestrabalhistas/entrevista-bim-e-sst-em-canteiros-de-obras/>. Acesso em: 4 mar. 2020. 

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Utilizando BIM. Guia completo: BIM 8D segurança. Disponível em:<https://utilizandobim.com/blog/bim-8d-seguranca/>. Acesso em: 2 mar. 2020. 

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KAMARDEEN, Imriyas8D BIM Modeling Tool For Accident Prevention Throught Design. Disponível em: <http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.461.8274&rep=rep1&type=pdf>. Acesso em: 2 mar. 2020. 

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Portal da Indústria. Centro de Inovação do SESI desenvolve software para reduzir acidentes na construção. Disponível em: <https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/inovacao-e-tecnologia/centro-de-inovacao-do-sesi-desenvolve-software-para-reduzir-acidentes-na-construcao/>. Acesso em: 3 mar. 2020. 

Associação Nacional de Medicina do Trabalho. Construção civil está entre os setores com maior risco de acidentes de trabalho. Disponível em: <https://www.anamt.org.br/portal/2019/04/30/construcao-civil-esta-entre-os-setores-com-maior-risco-de-acidentes-de-trabalho/>. Acesso em: 3 mar. 2020. 

O Município BlumenauMorte no trabalho: 93% são homens, a maioria na construção e transporte. Disponível em: <https://omunicipioblumenau.com.br/morte-no-trabalho-93-sao-homens-maioria-na-construcao-e-transporte>. Acesso em: 3 mar. 2020. 

Este artigo contou com a co-criação de Ricardo Cavalli Schmitt.

Ele é Designer Gráfico especializado em Design de Interação, trabalha como Product Designer na Unidade da Indústria da Construção da Softplan. Faz parte da equipe que promove o Grupo de Estudos em BIM dentro da empresa.