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Reúso da água nas edificações: cada vez mais necessário

18 de Abril de 2018

O reúso da água vem sendo uma solução adotada por todos os projetos de engenharia com visão sustentável. Em alguns casos, inclusive, trata-se de uma obrigação. Há leis municipais que já estabelecem programas de reaproveitamento das águas nas edificações.

A água potável acessível às pessoas está cada vez mais escassa. Por isso, soluções de engenharia que visam à ecoeficiência das construções são imprescindíveis nos dias de hoje.

De toda a água existente no mundo, menos de 1% está disponível para consumo humano. Contudo, a maioria dela é utilizada pela agricultura, pecuária e atividades industriais. Do que resta, boa parte está poluída devido a resíduos industriais, esgotos e lixões.

Para agravar a situação, diversas regiões de mundo estão sofrendo com a falta de água provocada por secas e estiagens.

Crise de abastecimento no Brasil

Ainda que o Brasil possua 12% das reservas de água doce do mundo, o maior volume delas situa-se na região Norte, a menos habitada do território. Além da distribuição desigual, a má gestão de nossos recursos hídricos acarreta problemas cada vez maiores.

Ao falarmos de secas no País, sempre pensamos na região Nordeste. A falta de chuvas característica do clima semiárido, associada ao desmatamento da Zona da Mata, contribui para compor a realidade dramática enfrentada no sertão nordestino.

Leo Nunes/Divulgação

Entretanto, alterações no regime das chuvas fizeram com que a próspera e populosa região Sudeste também passasse a sofrer com o racionamento de água. Nos últimos cinco anos, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo vêm sentindo intensamente os efeitos da estiagem, agravada pelo desmatamento, poluição e falta de planejamento urbano.

Falta de água no mundo

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 850 milhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso à água potável. E, se nada for feito para gerenciar de forma correta os recursos hídricos disponíveis, esse número aumentará.

A África é o continente com o pior abastecimento de água do mundo. Mesmo regiões costeiras e turísticas estão sendo duramente atingidas. É o caso da África do Sul, que no início deste ano declarou estado de catástrofe natural em todo o país devido à seca.

Em 20107, grande parte do sul da Europa experimentou secas prolongadas. Portugal e Espanha foram os países que mais sofreram – em outubro, 90% do território português estava com falta de água.

Nos Estados Unidos, regiões como a Califórnia já enfrentam escassez de chuvas, e especialistas apontam para o risco de uma estiagem de até 35 anos em partes do país a partir de 2050.

A Austrália também enfrenta secas recorrentes. O período mais grave, de 1997 a 2009, foi batizado de Millennium Drought (Seca do Milênio).

Na Índia, 54% da nação enfrenta problemas extremos com água.

Na China, a poluição e a demanda geradas pela industrialização e urbanização estão devastando os recursos hídricos. Em 2012, mais de 40% dos rios estavam gravemente poluídos e cerca de 300 milhões de pessoas não tinham acesso à água potável. Em 2016, as autoridades admitiram que 80% das águas subterrâneas da China estão poluídas.

Como reverter o problema?

Diante de um quadro tão dramático, a sociedade está sendo obrigada a adotar medidas para gerenciar de forma eficiente os recursos hídricos. Após tanto tempo dissipando e desperdiçando essa riqueza natural, os especialistas são taxativos: é hora de racionalizar o uso e diminuir a demanda.

A Construção Civil tem papel fundamental nesse sentido. Cabe a ela promover medidas para redução do desperdício e utilização de fontes alternativas de água nas edificações. Essas iniciativas podem proporcionar uma economia de água da ordem de 40%.

Confira agora o percentual de consumo de água em uma unidade habitacional unifamiliar:

  • Chuveiro – 55%
  • Pia – 18%
  • Lavadora de roupas – 11%
  • Lavatório – 8%
  • Bacia Sanitária – 5%
  • Tanque – 3%

(Fonte: ROCHA et al. 1999)

Essas informações podem servir para impulsionar boas práticas visando ao uso racional dos recursos hídricos. Como você viu, é no banheiro que se esvai a maior parte da água potável de uma residência. Por isso, veja aqui 10 dicas para economizar água nesse cômodo de sua casa.

reúso da água

Torneira pingando uma gota por segundo desperdiça 46 litros d’água por dia (Fonte: Consumo Consciente)

Contudo, além de atitudes individuais, as soluções técnicas para evitar desperdício e vazamentos nas construções também são decisivas. Entre elas, podemos citar:

  • bacias sanitárias de volume reduzido de descarga;
  • chuveiros e lavatórios de volumes fixos de descarga;
  • hidrômetros individuais;
  • torneiras com arejadores.


    reúso da água

    Medição individualizada pode diminuir consumo de água em até 40% (Divulgação)

E em relação à utilização de fontes alternativas?

As ações incluem a captação, armazenamento e reúso da água das chuvas e das águas cinzas (ou servidas). Os sistemas para isso devem ser concebidos e executados com base no diagnóstico de uma empresa de Engenharia. Em alguns casos, a instalação pode ser dificultada devido à falta de espaço para novas tubulações e reservatórios.

Já em projetos para edifícios novos, as medidas de uso racional da água devem estar compatibilizadas com os projetos de arquitetura, estrutura, ar-condicionado, automação predial e paisagismo. É preciso também considerar o custo inicial da implantação do sistema e a redução dos custos de operação do edifício, sempre prevendo o retrofit dos equipamentos. 

Entretanto, caso neste momento você não tenha condições de implementar equipamentos para reúso de água, é importante que faça ao menos a manutenção corretiva do sistema hidráulico existente. Afinal, de acordo com o Instituto Trata Brasil…  

…quase 40% da água tratada no País é perdida devido a vazamentos nas tubulações, ligações clandestinas e erros de medição.

Reúso da água da chuva

A água das chuvas deve ser captada na cobertura das edificações e encaminhada a uma cisterna ou tanque. Poderá, então, ser utilizada em atividades como lavagem de vidros, calçadas, pisos, veículos e irrigação de áreas verdes. 

Cisterna modular (Créditos: Tecnotri/Divulgação)

A maior parte das impurezas da água está presente nos primeiros minutos de chuva. Por isso, nas zonas urbanas, é recomendável que se descarte cerca de 2 mm da primeira água que cair (first flush). Essa remoção pode ser feita por meio de um separador de fluxo.

reúso da água

Para saber ao certo a quantidade de água a ser descartada e o tamanho do tanque de armazenamento, é necessário avaliar o tamanho do telhado e incidência de chuvas na região, de acordo com a norma da ABNT NBR 15527:2007.

Quanto aos reservatórios, devem ser limpos e desinfetados com solução de hipoclorito de sódio, no mínimo uma vez por ano, conforme preconiza a ABNT NBR 5626:1998.

Etapas básicas

De acordo com o manual Conservação e reúso de água em edificações, as etapas básicas para projetos de sistemas de coleta, tratamento e uso de água pluvial são:  

  • determinação da precipitação média local (mm/mês).
  • determinação da área de coleta (no caso de telhados, deve ser determinada de acordo com a NBR-10844: Instalações prediais de águas pluviais);
  • determinação do coeficiente de escoamento superficial, a depender do material e do acabamento da área de coleta;
  • caracterização da qualidade da água pluvial, utilizando sistemas automáticos de amostragem;
  • projeto do reservatório de descarte, para retenção temporária e posterior descarte da água coletada na fase inicial da precipitação. 
  • projeto do reservatório de armazenamento, que geralmente são aos equipamentos mais caros do sistema;
  • identificação dos usos da água (demanda e qualidade);
  • estabelecimento do sistema de tratamento necessário;
  • projeto dos sistemas complementares (grades, filtros, tubulações etc.).

Reúso das águas cinzas

As águas cinzas são aquelas que foram utilizadas em tanques, pias, máquinas de lavar, chuveiros e outros  equipamentos. Elas devem ser captadas, direcionadas por meio de encanamento próprio e conduzidas a reservatórios destinados a abastecer as descargas de vasos sanitários ou mictórios.

O reaproveitamento das águas cinza para utilização nas descargas sanitárias pode reduzir de 30% a 50% o consumo de água potável.

As águas cinzas podem contar com diversos tipos de contaminações, em decorrência do uso dos vasos sanitários. Assim, o sistema hidráulico destinado ao tratamento e distribuição de água de reúso proveniente da água cinza deve estar totalmente separado do sistema hidráulico de água potável. 

As águas são coletadas separadamente e direcionadas a uma estação de tratamento específica. O tratamento pode ser realizado utilizando-se microrganismos, plantas e agentes físico-químicos, dependendo de cada situação. Em prédios residenciais, o tratamento mais indicado é o físico-químico.

Finalizada essa etapa, a água de reúso é bombeada para um reservatório exclusivo.

Etapas básicas

Ainda de conforme o manual Conservação e reúso de água em edificações, os principais elementos do projeto de sistemas de reúso de águas cinzas são os seguintes: 

  • pontos de coleta de águas cinzas e pontos de uso;
  • determinação de vazões disponíveis;
  • dimensionamento do sistema de coleta e transporte das águas cinzas brutas, composto pelos condutores horizontais e verticais que transportam as águas cinzas coletadas ao sistema de tratamento para posterior armazenamento;
  • determinação do volume de água a ser armazenado;
  • estabelecimento dos usos das águas cinzas tratadas;
  • definição dos parâmetros de qualidade da água em função dos usos estabelecidos;
  • tratamento da água;
  • dimensionamento do sistema de distribuição de água tratada aos pontos de consumo.

Reúso da água – conclusão

Como vimos, o reúso da água nas edificações pode diminuir significativamente o consumo de água potável, preservando os mananciais e diminuindo a geração de esgoto. Em tempos de crise de abastecimento, trata-se de uma medida mais do que necessária nos projetos de Engenharia.

Essa evolução técnica e cultural influenciará diretamente a qualidade de vida das presentes e futuras gerações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ROCHA, A. L., BARRETO, D.; IOSHIMOTO, E. Caracterização e monitoramento do consumo predial de água. São Paulo, janeiro, 1999. Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água. (DTA – Documento Técnico de Apoio nº E1).

 

Helena Dutra

  • Jornalista
  • Redatora e revisora
  • Especialista em Produção de Conteúdo para Web
 

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