Construide: moradia é a base de tudo

Quando estamos acostumados a viver no conforto do nosso lar, não paramos para reparar na precariedade que existe em outros lugares ou até mesmo ao nosso lado para enxergamos que a moradia é a base de tudo. Segundo a Fundação João Pinheiro, em 2019 o déficit habitacional no Brasil chegou a 5,876 milhões de domicílios, sendo 85,84% em áreas urbanas e 14,16% em áreas rurais.

No Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua avaliou no mesmo ano que a renda média domiciliar per capita chegou no resultado de que metade da população brasileira sobrevive com R$ 438,00 mensais, quase 105 milhões de pessoas têm menos de R$ 15,00 por dia para suas necessidades.

Já em um nível mundial, um terço da população está vivendo em favelas ou assentamentos informais. Estima-se que até 2025 serão necessárias a construção de 1 bilhão de novas casas em todo o mundo. Cerca de 330 milhões de famílias estão ameaçadas pelo custo de habitação e não encontram oportunidades para mudar suas realidades.

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), uma moradia é considerada inadequada quando:

  1. Segurança de posse: falta segurança da posse, sujeitando a família ao despejo forçado, por exemplo;
  2. Disponibilidade de serviços, materiais, instalações e infraestrutura: não existe água potável, saneamento básico, energia, iluminação, armazenamento adequado de alimentos ou coleta de lixo;
  3. Economicidade: o custo da moradia ameaça o exercício de outros direitos humanos da família;
  4. Acessibilidade: não atende necessidades específicas de grupos desfavorecidos.
  5. Habitabilidade: a moradia não garante segurança física e estrutural, falta proteção para o frio, umidade, calor, chuva, vento e outros tipos de ameaças à saúde;
  6. Localização: é isolada de oportunidades de emprego, serviços de saúde, escolas, creches e outros tipos de apoios sociais, localizada em áreas poluídas ou perigosas;
  7. Adequação cultural: não respeita a expressão da identidade cultural.

Por esses critérios percebe-se que as condições de moradia têm um papel fundamental na vida das pessoas, impactando diretamente a saúde, qualidade de vida e acesso a oportunidades de educação e desenvolvimento pessoal. Indo além de apenas um lugar para morar, mas interferindo no papel que essas pessoas têm como cidadãs na sociedade.

moradia é a base

O déficit habitacional no cenário de pandemia

Imagine-se tendo que fazer o seu home office e ficar 24 horas dentro de um lugar que pode desmoronar a qualquer momento, quando chove é desesperador porque a água entra por todos os lados comprometendo tudo o que conquistou. Pois é, esse é a realidade que milhões de famílias vivem e sentem medo constantemente.

Conforto, segurança, dispensa e geladeira cheios, os filhos podendo acompanhar as aulas on-line, são coisas que fazem parte da minha e da sua realidade sem algum tipo de dificuldade. Mas pense: a sua realidade é o sonho de alguém.

Nos últimos quase dois anos tivemos que parar tudo, ficar dentro de casa e nos adaptar a um novo estilo de vida. Mas como ficar em casa quando não se tem uma casa?

A pandemia da COVID-19 colocou mais evidência na importância e necessidade de uma moradia digna, além de expor o atraso no crescimento econômico e social de boa parte da população.

Uma moradia não se resume apenas à quatro paredes e um teto, mas ao direito de toda pessoa ter um lar atrelado a um mínimo de conforto e segurança para viver em paz, com dignidade, saúde física e mental.

Atendendo a população de baixa renda

A Construide nasceu e existe pelo propósito de impactar vidas construindo moradias sociais. Através da construção civil devolver para famílias de classe E e D (renda mensal de R$ 0,00 e R$ 2.004,00) valores de dignidade, qualidade de vida, empoderamento, segurança e bem-estar.

Até hoje são 51 obras concluídas, entre elas casas sociais e reformas de espaços comunitários que viabilizam segurança, educação e cultura para a população que vive em vulnerabilidade.

Com um projeto modular que pode ser adaptado para diversos tipos de terrenos e famílias e movimentando uma comunidade de mais de 4 mil voluntários, o objetivo final é mais do que entregar uma casa. O objetivo principal é promover para famílias a possibilidade de recomeço e transformação de vida.

Nesse tempo de atuação encontramos diferentes famílias e histórias, mas todas com algo em comum: o sonho de ter uma casa. A maior parte das famílias que atendemos até então viviam há anos em barracos construídos com madeiras e telhas, muitos dos materiais velhos e sem condições de uso e de garantir um mínimo de segurança.

Além da falta se segurança, existem históricos de problemas de saúde desenvolvidos pelo péssimo estado da moradia, falta de incentivo para desenvolvimento pessoal que afetavam a educação e trabalho. Por mais que existisse o desejo de mudar a própria realidade, sempre existiram muito mais dificuldades do que possibilidades.

O impacto além da construção

O formato de trabalho da Construide envolve o trabalho voluntário. Formado por pessoas de diversas profissões e idades, os mutirões acontecem com ajuda de pessoas que não só amam a causa, mas também amam as famílias que são beneficiadas.

Durante o período de construção de uma moradia, que pode durar de 2 a 3 meses, a família beneficiada faz parte de todo mutirão cozinhando para o almoço dos voluntários e muitas vezes colocando literalmente a mão na massa para construção do seu maior sonho.

A aproximação dos voluntários com a famílias permite a troca de histórias, experiências e aprendizados, conhecer e fazer parte da realidade que a família vive gera um grande impacto dos dois lados.

“Abraçada é pouco, eu me senti envolvida numa cama de amor que as pessoas cuidavam tanto da gente, da minha família. Eu aprendi tanta coisa, eu aprendi o significado de amor, da esperança, da bondade, servir ao próximo sem querer nada em troca.” Samara Barbosa, beneficiada pela Construide.

Apesar de uma moradia não resolver 100% das dificuldades que as famílias encontram no caminho, percebemos o quanto elas se tornam mais felizes e motivadas a lutar por seus objetivos e conquistar seus sonhos. A moradia se torna o ponto de partida para cada família se motivar a crescer, melhorar a convivência familiar, recuperação de saúde e autoestima.

O Desafio de transformar o país

Não considerando só todo o contexto econômico que temos enfrentado como nação, mas também a nossa própria cultua, transformar esses índices é um grande desafio. É como aquela velha história de que é impossível mudar o mundo.

O cenário habitacional brasileiro não está relacionado apenas a problemas atuais, mas ao crescimento descontrolado que vem acontecendo há muitas gerações, envolvendo política, economia, educação, cultura e uma lista de outros fatores.

Mas até quando iremos olhar, encontrar os problemas e não os resolver? Até quando esperaremos por um resolvedor de todos os problemas que mudará nossa noção num piscar de olhos?

A urgência já existe, a desigualdade separa e nos torna cada vez mais distantes uns dos outros muito além da classe econômica. Está ligada aos valores que estamos carregando como sociedade e seres humanos.

Com todos esses dados que foram apresentados aqui, que a gente pense qual é o verdadeiro propósito que temos colocado no excelente trabalho que temos desenvolvido dentro da construção civil.

Construímos a moradia de milhões de pessoas e ambientes que geram milhões de empregos, somos um dos maiores segmentos de negócio do mundo. Mas podemos ir além, podemos alcançar as vidas que por um sistema desigual não podem nos alcançar.

Podemos vestir uma identidade não só de empresários, colaboradores, engenheiros e arquitetos, mas de agentes de transformação que levam segurança e dignidade para nossa população.

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