Arquitetura biomimética: o que é, vantagens e aplicações

Marília Gaspar

Marília Gaspar

Arquiteta e urbanista com especialização em gestão de projetos e arquitetura e cidade. Professora e mestranda.

10 de fevereiro 2021

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Você já pensou no fato de que a natureza é a nossa casa? O escritor Rubem Alves nos lembra que “a existência da água e do ar, a alternância entre o dia e a noite e o ponto de congelamento da água em nada dependem da vontade do homem. Ainda que ele nunca tivesse existido, a natureza estaria aí”. Essa nossa casa é exuberante e impressionante.

Observemos a forma de uma teia de aranha, a engenhosidade de um ninho de passarinho, a perfeita sincronicidade e interação dos sistemas do nosso corpo. Essas estruturas passaram por um processo de aperfeiçoamento de 3,8 bilhões de anos. Uma melhoria contínua na qual o que não funciona foi eliminado e o que é efetivo foi selecionado.

Tudo isso é a base da biomimética. Uma ciência que acredita que a observação da natureza, capaz de se adaptar para sobreviver e se reproduzir nas mais adversas condições climáticas e naturais, pode nos trazer respostas para os problemas atuais.

Então, nesse artigo vamos falar da biomimética, conceito que está tão em alta. Mostrar sua relação com a arquitetura, os exemplos já construídos e como você pode incorporá-la no seu trabalho. Vamos conhecer esse universo de novas possibilidades?

O que é biomimética?

Biomimética é a ciência que estuda os modelos da natureza. Considera-se que as diversas mudanças ao longo da evolução da Terra permitiram o desenvolvimento de sistemas avançados. Esses devem ser utilizados como inspiração ou até mesmo imitados para resolver problemas humanos atuais.

Dessa forma, a biomimética incentiva a inovação baseada na natureza e, com isso, torna-se uma importante aliada na criação de um futuro mais sustentável. Então, é uma forma de ver, valorizar e respeitar a natureza e, ainda, apresentar soluções que aliam economia de matéria-prima e energia.

O termo biomimética surgiu na literatura científica em 1962, mas foi somente nos anos 1980 que o seu uso cresceu, particularmente, entre os cientistas. Porém, alguns exemplos nos mostram que a biomimética está presente na nossa sociedade muito antes de se ter uma nomenclatura para ela.

Aplicações da biomimética

Um famoso exemplo da biomimética é a invenção do engenheiro suíço George de Mestral. Em 1948, enquanto passeava com seu cachorro, uma semente de bardana, que é coberta por pequenos “ganchos”, grudou na sua roupa. Ele ficou intrigado e dessa observação criou o velcro, muito utilizado em roupas e acessórios atualmente.

Velcro e semete de bardana
Figura 1: Velcro e semete de bardana

Outra aplicação da biomimética foi o desenvolvimento de cascos de barcos mais aerodinâmicos a partir do estudo dos golfinhos. A análise da forma como as vespas furam a madeira com o mínimo esforço inspirou o desenvolvimento de uma nova sonda médica.

Na arquitetura, a biomimética está presente também desde muitos séculos passados. No século XV, o arquiteto Filippo Brunelleschi partiu da observação da espessura das cascas de ovo para desenvolver um domo mais fino e mais leve para a catedral que de Florença.

Arquitetura biomimética

Muito tempo depois, a arquitetura biomimética se tornou uma corrente que busca soluções para a sustentabilidade na natureza. Não se trata de simplesmente replicar suas formas naturais no contexto de um código estilístico, mas de entender as regras que direcionam e regem essas formas e seguir os seus princípios.

Dessa forma, para a arquitetura biomimética, a natureza não é somente uma fonte de recursos para se extrair matéria-prima. Mas é uma extensa fonte de exemplos bem sucedidos e de lições a serem aprendidas. Podemos observar alguns cases de sucesso na natureza: as cavernas, os cupinzeiros e as casas de João de Barro são lares que abrigam e protegem.

A arquitetura biomimética vai além da arquitetura ambientalmente sustentável cuja aplicação é baseada na mitigação de problemas. Ela transcende a isso, busca uma reformulação das cidades e das edificações com base nos princípios que estão por trás das formas e sistemas naturais.

Assim, produz obras radicalmente mais eficiente em recursos e um importante passo rumo à sustentabilidade de fato.

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Exemplo emblemático de Arquitetura Biomimética: Eastgate Center

O Eastgate Center é um centro comercial e de escritórios localizado em Harare, Zimbábue. O edifício possui um sofisticado sistema de ventilação natural que elimina a necessidade de uso de ar condicionado. Esse fato gera uma economia de energia em cerca de 10% do consumido por um edifício tradicional de mesma dimensão.

A inspiração para o design desse sistema de ventilação veio dos cupinzeiros. Eles possuem a capacidade de manutenção da temperatura mesmo em ambientes com clima extremos com a utilização da abertura e do fechamento de túneis em seu sistema de ventilação.

O Eastgate Center é aberto à ventilação. O ar ao entrar na edificação é canalizado por toda a sua extensão e sai pelo sistema de exaustão, semelhante a uma chaminé. Nesse percurso, a ventilação realiza trocas térmicas com o ambiente resfriando-o ou aquecendo-o.

East Gate Center
Figura 2: Eastgate Center

Biomimética na sua obra

Mas não pense que a arquitetura biomimética é algo distante, com pouca aplicabilidade prática na realidade da sua obra. Pelo contrário! Ela está mais presente do que você imagina.

Separamos algumas soluções trazidas pela natureza que podem ser aplicadas para resolver questões na elaboração do projeto e na execução da sua obra. Veja a seguir!

Manutenção da temperatura interna

Um exemplo deste fato está na pele do jacaré, a parte do corpo que fica em contato com o meio tem a pele mais grossa e, com isso, reduz a troca de calor. Para isso, a parede com maior exposição ao calor pode ser feita de um material com maior inércia térmica e mais grosso.

Outra inspiração pode vir dos caramujos que possuem uma “casa” cuja superfície é reflexiva e composta por bolsas de ar, o que diminui a troca de calor. Você pode aplicar esses elementos em coberturas.

Energia solar fotovoltaica

Um edifício pode se “alimentar” da energia que vem do sol, assim como as plantas. Com isso, temos edifícios autossuficientes em energia, por meio da energia solar fotovoltaica.

Edificação com energia solar fotovoltaica
Figura 3: Edificação com energia solar fotovoltaica

Aquecimento

Para manter uma temperatura confortável em locais frios pode-se utilizar um sistema de aquecimento semelhante ao sistema circulatório humano. Para isso, utiliza-se de vapor d’água que após o processo de condensação pode ser reaproveitado.

Reaproveitamento de água

Pode-se construir um sistema de captação de água da chuva em coberturas com o emprego de níveis, semelhante à forma como os rios são alimentados.

Vantagens da adoção da arquitetura biomimética

A arquitetura biomimética contribui para a aplicação da sustentabilidade na sua obra. Já falamos que a sustentabilidade é feita de gestão eficiente, redução de resíduos e com a utilização de matérias sustentáveis e de como ela é uma aliada para aumentar as vendas na construção civil.

Além, é claro, do ganho de notoriedade que o seu uso traz para a obra. A redução de gastos ao longo do ciclo de vida da edificação, como foi visto no exemplo do Eastgate Center, faz com que traga vantagens competitivas ao mercado.

Terminamos também com Rubem Alves que observou que “não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.” Que tal trazer a natureza para mais perto dos seus empreendimentos e, ainda, ganhar vantagens competitivas no mercado imobiliário? Uma metamorfose interessante, não acha?

Conta pra gente nos comentários o que achou desse conceito e como você o imagina sendo aplicado na sua realidade. E não se esqueça de compartilhar este post! Até o próximo!

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