Especial – Entrevista com Jonas Medeiros: Industrialização e Construção Modular

Juliana Nakamura

Escrito por Juliana Nakamura

12 de setembro 2018| 10 min. de leitura

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Industrializar a construção é um assunto discutido há anos no Brasil. Capaz de solucionar problemas crônicos da nossa indústria, como a baixa produtividade, a industrialização ganha corpo em alguns segmentos, como o industrial e o de shopping centers. Mas ainda engatinha em setores como o residencial, restrito a práticas artesanais de produção.

Para entender o que impede uma industrialização mais ampla da construção brasileira, conversamos com o engenheiro Jonas Medeiros Silvestre.

Diretor técnico da Inovatec Consultores, Jonas é doutor em engenharia de construção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Ele também é um dos participantes do Construtalk Floripa e do Construsummit, ambos realizados pelo Buildin.

Nessa entrevista, ele compartilha suas impressões, bem como práticas interessantes que conheceu no exterior. Confira!

Buildin – Por que industrializar a construção é tão importante?

Jonas Medeiros – Porque é a única maneira de romper com o ciclo de atraso tecnológico em que estamos. Nosso processo de construir é praticamente todo artesanal. Ou seja, depende excessivamente de habilidades humanas, do modo de fazer manualmente as coisas. Construímos o edifício quase todo em canteiros de obras. Temos de produzi-los em fábricas e apenas montá-los na obra. Enquanto isso não acontecer, até podemos melhorar processos, mas nunca vamos industrializá-los de fato.

Buildin – Como será o futuro da construção a partir do ponto de vista da industrialização?

Jonas Medeiros – Os sistemas industrializados vão conviver com processos convencionais por muito tempo. Alguns setores estão dando saltos significativos. Praticamente não se usa mais alvenaria para se construir paredes de shopping centers, por exemplo. As estruturas são em concreto pré-moldado ou aço já há um bom tempo. Mas quase não vemos este movimento nos edifícios residenciais.

O que outros países estão fazendo é se voltar para a construção modular. Há diversas formas de fazer isso, mas todas passam por produzir mais na fábrica e menos no canteiro. Projetos altamente detalhados e integrados em BIM, componentes industrializados e customizados montados a seco, organização da cadeia de fornecedores, e a utilização de tecnologia digital são meios necessários para viabilizar isso.

“O que outros países estão fazendo é se voltar para a construção modular. Há diversas formas de fazer isso, mas todas passam por produzir mais na fábrica e menos no canteiro”.

Buildin – O que falta para a construção brasileira atingir uma industrialização mais satisfatória?

Jonas Medeiros – Há dez anos eu não esperava ver algumas inovações que vejo em prática em larga escala hoje. Para ficarmos nas áreas que mais conheço, posso citar os sistemas de fachada ventiladas e a construção de paredes em light steel frame.

A norma de desempenho e suas revisões vão ajudar muito na introdução de novidades desse tipo. Mas isso ainda é pouco para darmos um salto em direção à industrialização. Com a articulação necessária, podemos vivenciar uma evolução sem paralelo. Mas esta articulação não acontecerá sem a liderança necessária e preparada de meios empresariais e governamentais.

Há muitas barreiras como a resistência cultural, a falta de dados e metodologia adequada para comparar custos, a qualificação da mão de obra e até conflitos de interesses que fazem com que o mercado seja estimulado a continuar a fazer as coisas do mesmo jeito.

Outro obstáculo é a falta de um regime de tributação voltado à promoção de materiais e métodos modernos de construção. Se não mexermos nisso, fica difícil nadar contra a maré.

Buildin – Duas áreas que você conhece bem – vedação e revestimentos – sofrem bastante com patologias. Se tivéssemos maior industrialização, nossos edifícios seriam melhores?

Jonas Medeiros – Antes do boom de obras que tivemos há alguns anos, tudo levava a crer que nossos esforços de perseguir a racionalização dos processos seriam suficientes para nos levar a outro patamar. Mas o rápido aumento da demanda mostrou que, uma vez dependentes da mão de obra artesanal, ficamos muito vulneráveis. O que vemos agora – e não é apenas em vedações e revestimentos – é o passivo dos anos de crescimento acelerado e desordenado.

Se tivéssemos evoluído com a industrialização não estaríamos passando pelos problemas de qualidade aos quais você se refere. Para você ter uma ideia, no Japão não se vende casas pré-fabricadas porque o prazo de entrega é rápido, mas por causa da confiabilidade. São 200 mil casas ao ano com qualidade assegurada a um custo de apenas 15% superior que uma equivalente construída de modo convencional.

Buildin – Como resolver isso por aqui?

Jonas Medeiros – Precisamos aproveitar o aumento exponencial de custo da mão de obra – que nos aproxima de outros países – para implantar novas tecnologias. Neste momento de desaquecimento, temos uma chance rara de fazer o dever casa para aproveitar melhor a retomada do mercado que virá. Algumas indústrias têm pensando assim e por isso já vemos alguns projetos de P&D muito interessantes como os que fazemos agora na Inovatec.

“Neste momento de desaquecimento, temos uma chance rara de fazer o dever casa para aproveitar melhor a retomada do mercado que virá”.

Buildin – Você tem viajado bastante para analisar a construção em outros países…

Jonas Medeiros – Quando comecei estudar o assunto, vi que os Estados Unidos, o Reino Unido e outros países procuravam se inspirar no modelo japonês para praticar inovação. Por isso que resolvi investigar o que esse país tem feito para ter o mercado mais evoluído do mundo em construção modular.

Buildin – E o que você descobriu?

Jonas Medeiros – Os japoneses aprenderam muito com a indústria automobilística e transferiram boa parte deste aprendizado cross-section para a indústria de pré-fabricação de casas e prédios. Foi a indústria ligada ao setor do aço que desenvolveu os principais sistemas construtivos para a construção pré-fabricada, e não as construtoras.

No Japão a cadeia é muito bem organizada. Há fábricas de casas e fornecedores espalhados por todo o país, além de milhares de pontos de vendas. Nestes locais é possível projetar casas, comprar terrenos, obter financiamento e adquirir uma casa exclusiva, com arquitetura única. Em alguns casos, chegam a ser disponibilizados 300 mil itens que, quando combinados, permitem produzir casas com 6 a 10 mil itens cada.

Buildin – Como eles conseguem fazer isso?

Jonas Medeiros – Eles utilizam muita tecnologia de informação e não param de inovar em novos materiais e processos construtivos. Tudo isso faz com que eles possuam uma realidade completamente diferente da nossa. Temos muito a aprender com o Japão. A questão é como depurar o conhecimento e fazer alguma coisa acontecer aqui.

Buildin – Há outros países com práticas inspiradoras para o Brasil?

Jonas Medeiros – No Chile já há fábricas de casas operando com módulos 3D de alto padrão de qualidade. Na Finlândia, há um grupo forte que reúne universidade e empresas. Eles estudam a aplicação de uma série de tecnologias digitais de modo pioneiro. Singapura e outros países também têm programas semelhantes com incentivo do governo.

Vemos claramente países se esforçando para tirar a construção do atraso tecnológico em que ela se encontra em relação a outros setores. Se não buscarmos isso, vamos ficar cada vez mais defasados.

“Vemos claramente países se esforçando para tirar a construção do atraso tecnológico em que ela se encontra em relação a outros setores. Se não buscarmos isso, vamos ficar cada vez mais defasados”.

Buildin – Soube que você está desenvolvendo uma empresa para construção de bangalôs industrializados…

Jonas Medeiros – Criamos uma empresa para desenvolver módulos pré-fabricados e colocar em prática alguns destes conceitos. A primeira aplicação prática é construir casas de campo modernas e compactas, transportáveis e móveis, quase que inteiramente montadas em uma oficina especializada. Tem dado muito trabalho, mas tem sido um aprendizado fantástico. É só praticando que realmente se aprende e se percebem as dificuldades. O que nos anima é o enorme potencial para aplicação destes módulos. No momento certo, o mercado vai ser altamente comprador destas tecnologias. É aguardar para ver as novidades.

Gostou dessa entrevista? Divida a sua opinião conosco! Se achou interessante, não deixe de conhecer o Construsummit, evento organizado pelo Buildin para discutir inovação na construção civil. O Jonas estará lá como palestrante e o encontro acontecerá nos dias 28 e 29 de novembro, em São Paulo!