Movimento Wellness: a vez das pessoas

Antonio Macedo Filho

Com mais de 20 anos de atuação na área, Antonio Macedo é um dos precursores da sustentabilidade das construções no Brasil.

23 de setembro

Você sabia que trabalhar em um ambiente saudável reduz o nível de stress e aumenta o de produtividade? O Movimento Wellness se preocupa com tudo isso e tem como finalidade promover o bem-estar das pessoas. É esse o tema deste artigo. Vamos saber mais sobre como construir juntos escritórios mais saudáveis?

Vamos ver que atitudes simples na construção do escritório, como por exemplo, a iluminação e uma boa ventilação são fatores que afetam diretamente o desenvolvimento profissional. É esse o tema deste artigo. Vamos saber mais sobre como construir juntos escritórios mais saudáveis?

O estresse mata

Já se sabe hoje que períodos contínuos e regulares de estresse, combinados com um estilo de vida sedentário, podem de fato provocar morte precoce. Um trabalho publicado por Elizabeth Blackburn e Elissa Epel comenta que o chamado ‘efeito telômero’ (extremidade protetora de seus cromossomos), cujo encurtamento leva a doenças cardíacas, cânceres e enfraquecimento do sistema imunológico, está relacionado com o aumento do estresse e estilo de vida sedentário.

Em maio deste ano (2019), o esgotamento profissional, conhecido como “Síndrome de Burnout”, foi incluído na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). A lista é baseada nas conclusões de especialistas de todo o mundo e utilizada para estabelecer tendências e estatísticas de saúde.

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A síndrome de burnout, ou de esgotamento profissional, está sendo chamada de “Mal do Século”. Fonte: Ministério da Saúde

Segundo pesquisa da ISMA-BR (representante brasileiro da International Stress Management Association), 72% dos brasileiros que estão no mercado de trabalho sofrem alguma sequela associada ao estresse. Deste total, 32% sofrem da Síndrome de Burnout e 92% destas pessoas continuariam trabalhando. Segundo a psicóloga e presidente da ISMA-BR, Ana Maria Rossi, “um trabalhador neste estado está muito mais propenso a cometer erros graves”.

Trata-se de um problema que, para além da importância que já toma em relação à saúde pública, tem sido relacionado a prejuízos multimilionários para empresas do mundo inteiro. As questões relacionadas ao bem-estar das pessoas, em especial nos ambientes de trabalho, já deixaram de ser, para o mundo corporativo, uma coisa desejável, para ser algo necessário, fundamental mesmo para a sobrevivência das empresas hoje e no futuro.

A vez das pessoas

Empresas de todo o mundo, de diferentes tamanhos, em especial as maiores, já têm adotado estratégias e boas práticas de sustentabilidade, com os seus ganhos de eficiência, de funcionalidade e redução de impactos ambientais, em muitos casos de maneira consistente em suas diretrizes corporativas. Agora, entendem que os seus esforços devem dirigidos à valorização das pessoas, na promoção da saúde, conforto, bem-estar e qualidade de vida. É o chamado “Movimento Wellness”.

Trata-se de um setor que tem muitas ramificações, em diferentes áreas de negócios, que foi avaliado em US$ 3,7 trilhões de dólares, no mundo, somente em 2016, crescendo mais de 10% ao ano.

Os conceitos defendidos pelo Movimento Wellness tem levado para as mesas de reuniões de muitas empresas questões como: a qualidade do ar, da água e da comida servidas aos funcionários, a oferta de programas de incentivo à atividade física, a flexibilidade de horários e locais de trabalho, a oferta de espaços de convívio e relaxamento, dentre outras estratégias que, em conjunto, visam promover a saúde, o conforto e o bem estar das pessoas nos ambientes de trabalho.

Segundo matéria publicada no jornal Valor Econômico em 23/08/2019, citando estudo realizado com 1,6 mil funcionários de empresas dos Estados Unidos, “os esforços das empresas não têm sido suficientes para promover o bem-estar dos funcionários, a despeito dos investimentos crescentes em academias, ergonomia e opções de alimentação mais saudáveis”, disse Jeanne Meister, sócia da Future Workplace, empresa que realizou a pesquisa em parceria com a View.

“São os fatores aparentemente invisíveis, como qualidade do ar e luz natural, que mais influenciam o bem-estar, a produtividade dos funcionários e, acima de tudo, a qualidade da experiência das pessoas nos escritórios”.

Apenas 1 de cada 4 entrevistados afirmou que a qualidade do ar de seu escritório é adequada para se realizar seu melhor trabalho e metade deles afirmaram que a má qualidade do ar no ambiente interno os deixa mais sonolentos.

Mais do que isso: quase um terço deles apontou sofrer com olhos lacrimejando ou irritação na garganta no trabalho. Para 85% deles, o ar que respiram em suas casas ou na rua é melhor do que o do escritório.

Com relação à temperatura, apenas um em cada três funcionários disse que a temperatura do ar de seus escritórios é ideal e um terço disse que trabalha, hora com ar quente demais, hora frio demais. Metade deles gostaria que suas empresas projetassem ambientes que resolvessem esse dilema.

Sobre a luz dos escritórios, grande parte dos entrevistados indicou que é comum ter sua visão bloqueada por persianas ou cortinas e um terço disse que a intensidade e coloração da luz a que têm acesso é importante para seu bem-estar.

Outro fator analisado pela pesquisa foi a acústica. Metade dos entrevistados afirmou se distrair com a conversa alheia e mais de um terço deles afirmaram que o barulho de telefones, da digitação nos teclados e dos sistemas de refrigeração do ar atrapalham sua concentração. Para 37% deles, as empresas deveriam criar um ambiente mais silencioso.

Atratividade, retenção de talentos e ganhos de produtividade

O estudo indica que pensar no bem-estar é também uma questão de atração e retenção de talentos. Para 67% dos entrevistados, a produtividade e o engajamento aumentam em ambientes que contam com fatores que promovem o bem-estar físico e emocional.

Mais de dois terços dos entrevistados (67%) afirmaram que trabalhar em um ambiente que contribui para seu bem-estar e saúde os faz considerar aceitar uma oferta de trabalho e 69% disseram que este é um fator que os leva a permanecer no emprego.

Estes índices chegam à quase totalidade dos casos quando se trata dos chamados “millenials”, jovens profissionais, nascidos nos anos 90 e crescidos já na era digital. Para estes, a busca da felicidade e bem-estar é crucial, com nível de importância inclusive superior ao sucesso financeiro.

São jovens que representam boa parte da massa de trabalho e que começam a assumir posições de liderança em muitas empresas. Com formatos e ambientes de trabalho mais dinâmicos e flexíveis, produtividade passou a ser a palavra-chave. E isto pode fazer, de fato, toda a diferença.

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Os investimentos em bem-estar se justificam, sob o aspecto financeiro, quando se compara o aumento de produtividade das pessoas nos seus trabalhos (mesmo que seja de poucos pontos percentuais), com o custos destas pessoas para as empresas ao longo do tempo.

São custos que podem alcançar cifras multimilionárias, em muitos casos, incluindo-se aqueles relacionados aos custos diretos das empresas com planos de saúde de seus funcionários. As empresas estão percebendo que investir em qualidade de vida das pessoas é um bom negócio.

Vale muito mais a pena investir em saúde e bem-estar das pessoas (o que se refletirá em ganhos de produtividade), do que planos de saúde e atendimentos médicos.

Como implementar o Wellness nos ambientes

Algumas questões que surgem nas reuniões para discussão destes assuntos são, por exemplo: O que fazer? Quais estratégias propor? Quais darão melhores resultados? Como estimar e medir estes resultados? Como vamos justificar os investimentos?

Para dar respostas precisas a questões como estas e orientar as empresas na implantação e no contínuo aperfeiçoamento de estratégias de bem-estar para as pessoas, foi criada nos EUA, em 2014, a certificação WELL.

Trata-se de uma ferramenta a ser usada para efetivamente se obter indicadores mensuráveis para aferir os impactos que os espaços construídos têm sobre o corpo humano, sobre nossa saúde, comportamento e capacidade de realizar trabalho ou se relacionar com outros.

Empreendimentos ou espaços certificados WELL são aqueles que comprovadamente foram projetados, construídos e são mantidos de forma a promoverem a saúde, a felicidade, o bem-estar e a produtividade dos seus usuários.

O International Well Building Institute, entidade que promove o WELL Building Standard, baseada em Nova York, tem observado crescimento exponencial da aplicação da certificação, atingindo, em agosto de 2019, 58 países ao redor do mundo, inclusive o Brasil.

O processo prevê uma abordagem holística de aspectos relacionados a assuntos como a qualidade do ar, da água, da alimentação, o nível de conforto (térmico, acústico, luminoso, ergonômico), a qualidade dos materiais, o incentivo à atividade física e implantação de políticas de gestão de pessoas mais inclusivas, transparentes, participativas e integradas entre si.

São medidas que devem ser consideradas nos projetos, na execução e na operação dos espaços certificados e podem ser implementadas tanto em instalações novas, a serem construídas, ou mesmo já existentes, uma vez sejam capazes de atender aos critérios mínimos de certificação.

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Os resultados da busca e conquista da certificação WELL, com a visibilidade e credibilidade que ela traz, tem sido tão bons que muitas empresas, de diferentes portes, têm passado a adotá-la de forma sistemática em suas políticas de gestão dos espaços de trabalho, em todo o mundo.

Este ano foi inclusive lançada uma nova versão do sistema para dar ainda mais impulso a estas iniciativas, chamada WELL Portfolio, voltada para empresas que adotem o WELL Building Standard em um conjunto de instalações de uma só vez, mesmo que estas estejam em países diferentes, de maneira coordenada e com esforços otimizados, desde que atendam a um conjunto de critérios de desempenho que possam ser implementados, medidos e validados no processo de certificação.

É, de fato, uma ferramenta poderosa e que faz todo o sentido, não apenas para as próprias pessoas, mas também para as empresas, que desta forma podem comprovar e validar, por meio de medidas práticas e com indicadores precisos, a adoção de estratégias de Wellness, em suas instalações.

Estamos diante de uma nova era. A era da valorização das pessoas.

Nas palavras do Sr. Rick Fedrizzi, fundador e CEO por mais de 16 anos do U.S. Green Building Council, entidade criou a certificação de empreendimentos sustentáveis LEED, mais utilizada em todo o mundo para identificar Green Buildings, e que desde 2016 é CEO do IWBI (International Well Building Institute), entidade que promove o WELL, “estamos falando da 2ª onda da sustentabilidade, o próximo passo que todos devemos dar”.

Para saber mais:

Avaliações de desempenho e consultorias técnicas WELL

EcoBuilding Consultoria: 11 2218 0277 / contato@ecobuilding.com.br

Missão Técnica WELL Experience Tour Nova York – Novembro 2019

ArqTours, by Raquel Palhares: 11 99285 4554 / raquel@arqtours.com.br

Vídeo: Entrevista de Rick Fedrizzi, fundador do USGBC e CEO do IWBI, a Antonio Macedo, da EcoBuilding

Adaptado a partir de artigos de Gloria Gibbons, Global Practice Leader na Ogilvy Health & Wellness (Reino Unido) e de Barbara Bigarelli, jornalista do Valor Econômico (São Paulo)