Governança corporativa na Indústria da Construção

Giseli Barbosa Anversa

Giseli Barbosa Anversa

Engenheira Civil, é Lead Product Manager do Sienge, atuando no desenvolvimento de ações para impulsionar o desempenho de empresas da Indústria da Construção.

12 de março 2021

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Não é novidade para ninguém que parte do setor da construção esteve no centro de uma crise ética nos últimos anos no Brasil. Tal contexto abriu espaço para uma adoção mais profunda e séria da governança corporativa na Indústria da Construção.

Trata-se de um processo muito importante, que geralmente é usado por empresas maiores ou em expansão. Conforme veremos neste post, o uso da governança corporativa serve para normatizar procedimentos e fluxos de informação, ampliando, assim, a estrutura organizacional conforme as operações vão se tornando mais complexas.

Portanto, são procedimentos que garantem uma boa e honesta gestão da empresa. Entenda mais sobre o tema a seguir e também a importância da governança corporativa na Indústria da Construção. 

O que é governança corporativa?

Segundo o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), podemos compreender a governança corporativa da seguinte forma:

É o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.

Dessa forma, o objetivo da governança corporativa é levar a empresa a um sistema de gestão de excelência, além de promover a transparência. Portanto, sua adoção se torna cada vez mais necessária e pode ser um diferencial competitivo, em especial para as construtoras que desejam realizar um IPO.

O uso da governança corporativa serve para normatizar procedimentos e fluxos de informação

No Brasil, só para contextualizar, o tema surgiu a partir das privatizações e da abertura do mercado nacional nos anos 1990. Com o passar do tempo, verificou-se que os investidores estavam dispostos a pagar um valor maior por empresas que adotassem boas práticas de governança corporativa. 

Constatou-se também que tais práticas não apenas favoreciam os interesses de seus proprietários, mas também a longevidade das empresas.

Princípios básicos da governança corporativa

As boas práticas de governança corporativa convertem princípios básicos em recomendações objetivas. Mas que princípios são esses? 

De acordo com o IBGC, os princípios básicos de governança corporativa permeiam, em maior ou menor grau, todas as práticas do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. Sua adequada adoção resulta em um clima de confiança tanto internamente quanto nas relações com terceiros. 

Conheça os princípios:

Transparência

Consiste no desejo de disponibilizar para as partes interessadas as informações que sejam de seu interesse e não apenas aquelas impostas por disposições de leis ou regulamentos.

Mas não se deve restringir ao desempenho econômico-financeiro. Ou seja, precisa contemplar também os demais fatores (inclusive intangíveis), que norteiam a ação gerencial e que conduzem à preservação e à otimização do valor da organização. 

Equidade

Caracteriza-se pelo tratamento justo e isonômico de todos os sócios e demais partes interessadas (stakeholders), levando em consideração seus direitos, deveres, necessidades, interesses e expectativas.

Prestação de contas (accountability)

Os agentes de governança devem prestar contas de sua atuação de modo claro, conciso, compreensível e tempestivo. Eles também precisam assumir integralmente as consequências de seus atos e omissões, atuando com diligência e responsabilidade no âmbito dos seus papéis.

Responsabilidade corporativa

Os agentes de governança também devem zelar por:

  • Viabilidade econômico-financeira das organizações;
  • Redução das externalidades negativas de seus negócios e suas operações;
  • Aumento das externalidades positivas, levando em consideração os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, ambiental, reputacional etc.), no curto, médio e longo prazos.

A importância da governança corporativa na Indústria da Construção 

Agora que você já sabe o que é governança corporativa e quais os seus princípios básicos, vamos nos aprofundar um pouco mais para entender a sua importância para as construtoras.

Vimos que a governança corporativa está diretamente ligada a uma gestão mais transparente, alinhando todos os interesses de forma clara. Dessa forma, há uma melhora nas tomadas de decisão. Além desse benefício, podemos listar melhorias em: 

  • desempenho operacional;
  • captação de recursos;
  • visibilidade de mercado;
  • entre outros.

A governança corporativa na Indústria da Construção também ajuda a evitar:

  • conflitos de interesses;
  • erros;
  • fraudes;
  • uso privilegiado de informações;
  • abuso do poder;
  • e outros problemas que afetam a gestão da construtora.

A governança corporativa na Indústria da Construção ajuda a evitar conflitos de interesses, erros, fraudes etc.

Em resumo, a importância da governança corporativa também é evidente quando se trata da atração e relacionamento com investidores e clientes. 

Se a sua empresa ou construtora está em processo de expansão ou deseja organizar e normatizar processos, precisa considerar uma estratégia que permeia a governança corporativa. 

Mudanças de comportamento das construtoras

Conforme falamos no início deste texto, os escândalos de corrupção, que assolaram algumas construtoras nos últimos anos, jogaram luz na importância da governança corporativa na Indústria da Construção. 

Prova disso é que vimos construtoras se reestruturando, promovendo uma profunda mudança cultural, criando programas de compliance e outras ações. Algumas criaram conselhos e comitês independentes, em alguns casos sem a participação de acionistas. 

Por exemplo: hoje há empresas que não apresentam nenhuma proposta de concorrência sem antes passar pela aprovação de comitês de conformidade e/ou conselhos especiais, como de administração. Em muitos casos, o modelo de governança adotado prevê que o comitê de conformidade precisa responder diretamente ao conselho de administração.

Houve – e ainda há – uma clara jornada de reestruturação em busca de governança e conformidade. A Odebrecht, por exemplo, inovou ao criar, em outubro de 2016, um Conselho Global visando apoiar o desenvolvimento da governança e das políticas de compliance da empresa. Tal conselho era formado por especialistas em combate à corrupção e cidadania corporativa.

Conclusão

Então, é inegável que a governança corporativa é essencial para as empresas, em especial para aquelas que tiveram problemas de ordem legal nos últimos anos. 

Podemos afirmar, portanto, que a reconstrução da credibilidade e reputação dessas empresas passa pela revisão de seus princípios de governança, que vimos neste post: transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa.

Além disso, mais do que nunca, é preciso ter uma busca permanente da coerência entre aquilo que se espera de uma organização e o que de fato ela pratica no dia a dia. O sucesso dessa jornada depende da trajetória a ser reconstruída por seus administradores.

Programas de compliance também são importantes e contribuem diretamente para a governança

Nesse contexto, é preciso lembrar que programas de compliance também são importantes e contribuem diretamente para a governança. Pois não há mais espaço no mercado para empresas desonestas, sem ética e transparência. Quem se arrisca a ter sua imagem arranhada por desvios de conduta, dificilmente vai sobreviver como empreendedor. 

E vale lembrar aqui de um dado um tanto quanto preocupante: a Association of Certified Fraud Examiners (ACFE) calcula que as organizações em geral perdem até 5% de seu faturamento devido a fraudes. Imagino que você não deseja isso para a sua empresa, certo?

Por isso, veja agora 8 qualidades fundamentais para um bom agente de compliance, que é peça fundamental numa estratégia de governança corporativa na Indústria da Construção.

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