Construtechs impulsionam a produtividade das construtoras

Marcus Vinicius D. B. Castro

Marcus Vinicius D. B. Castro

Head de Produto no Sienge
Atua no desenvolvimento de soluções inteligentes visando otimizar os resultados dos projetos do mercado da Construção

8 de julho 2021

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As construtechs surgiram recentemente e já abriram um novo capítulo no desenvolvimento da construção civil, trazendo inovações sintonizadas com a revolução 4.0 do Século 21.

Com uma evolução muito rápida, dinâmica e totalmente descentralizada, as construtechs impulsionam a produtividade e eficiência das construtoras. Em boa hora, pois essa é uma das maiores deficiências do setor, que se encontra em meio a mais uma situação de crise na economia.

Aliás, você deve saber que a indústria da construção é uma das mais refratárias aos processos de digitalização. Especialistas chegam a dizer que, no mundo, apenas a pesca é tão atrasada na incorporação de novas tecnologias.

Mas, ou as construtoras se modernizam e se tornam mais produtivas, ou vão perecer neste que é um dos mercados mais competitivos dos negócios. Neste sentido, as construtechs apresentam soluções para as mais diversas áreas da construção.

De uma maneira geral, proporcionam incríveis ganhos de produtividade com suas respostas a problemas que vão da gestão à execução das obras, como você vai ver na sequência da leitura. 

Produtividade no Brasil e no mundo

Precisamos falar mais um pouco sobre a defasagem da produtividade da construção civil no Brasil, pois isto mostra o quanto é preciso avançar neste quesito. Ainda que seja uma grande preocupação dos empreendedores, o fato é que pouco se faz, efetivamente.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas para o Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon-SP), por exemplo, mostrou que a mão de obra do setor no Brasil é, em média, 30% menos produtiva do que nas outras nações pesquisadas.

Ao comparar com os Estados Unidos, a pesquisa concluiu que a mão de obra brasileira alcança apenas 20% da produtividade dos trabalhadores daquele país.

No mesmo período estudado, de 2003 a 2013, enquanto a produtividade na construção civil daqui cresceu 20,6%, na China ela cresceu 108,4%.

Mesmo nos países desenvolvidos, a produtividade da construção civil fica abaixo da produtividade média da economia, que é a base (100) do comparativo do gráfico abaixo. 

Ele mostra o duplo gap do índice de produtividade do setor em relação à média da economia brasileira, bem como a grande diferença em relação aos países desenvolvidos. 

Veja o tamanho da diferença!

Não é apenas mão-de-obra

Mas é preciso que fique claro, no entanto, que a responsabilidade por isso não é apenas a mão-de-obra, que se costuma apontar como a vilã da produtividade, por deficiências de qualificação.

O Sebrae aponta esta, mas também outras causas que comprometem a rapidez, o custo e a qualidade das obras no País. São elas:

  • Matéria-prima: o controle eficiente sobre o uso de material padronizado evita a perda de tempo com produtos de qualidade inferior ou com a espera para que refaçam o estoque do que foi utilizado inicialmente.
  • Layout do canteiro de obras: o espaço de trabalho deve ser muito bem planejado, facilitando e agilizando a circulação de trabalhadores e máquinas, além de oferecer local adequado para o armazenamento dos materiais.
  • Segurança do trabalho: uma empresa que oferece todas as garantias para um trabalho seguro tem menos prejuízos com funcionários que se machucam e precisam ser afastados do trabalho, situação que pode gerar atrasos.
  • Planejamento e controle de obras: obras bem planejadas não passam por problemas como falta ou desperdício de materiais, atrasos ou erros que comprometam os trabalhos.

Construtechs e incorporação de novas tecnologias 

Claro, a produtividade passa também pela incorporação inteligente, sempre que possível, de novas tecnologias. No entanto, o setor investe muito pouco em inovação.

A Gazeta do Povo cita a respeito o relatório ConTech Report 2018-2019”, da JB Knowledge, que apontou que 46% das empresas de construção civil de vários países do mundo gastaram menos de 1% da receita em tecnologia em 2017 e 2018. 

Ou seja, não houve evolução alguma em inovação neste biênio!

O Sebrae aponta como principais vantagens das novas tecnologias a  redução do tempo construtivo, a padronização das atividades, a redução de desperdícios e a diminuição de retrabalhos.

Isto inclui desde novos materiais, aparelhos digitais, máquinas automatizadas e novos softwares, para as mais diversas finalidades. 

As construtechs estão dando a sua contribuição para isso, com soluções por vezes surpreendentes. Mas vamos situar melhor o que elas são e o espaço que as construtechs já estão ocupando.

Startup da construção

As construtechs surgiram, a partir de 2015, na onda de uma grande proliferação das startups, que são empresas jovens, com modelo de negócio repetível, escalável e baseado em tecnologia.

Normalmente, conforme o setor para o qual estão voltadas, as startups ganham o sufixo “tech”. 

A partir daí, nós temos as: 

  • Fintechs (setor financeiro)
  • Construtechs (construção civil)
  • Insurtechs (seguros)
  • Edtechs (educação)
  • Martechs (marketing)
  • Lawtechs (jurídico)
  • Cooptechs (cooperativismo)
  • Agrotechs (agronegócio)

Estão sempre surgindo novas frentes e novos nichos de startups, pois é grande a criatividade de uma nova geração de técnicos, especialistas e novos empreendedores. 

Uma de suas características mais marcantes é a experimentação, visando resolver problemas específicos do setor correspondente, como é o caso das construtechs. 

Mapa das construtechs no Brasil

“A necessidade de reduzir custos, otimizar receitas, criar diferenciais competitivos, impulsionou a inovação. Profissionais líderes de empresas de todo o país, cada dia mais, entendem o valor da adoção de novas soluções digitais em seu negócio”, aponta Bruno Loreto.

Ele é managing partner da Terracotta Ventures, que vem fazendo, anualmente, o Mapa das Construtechs no Brasil. Veja os principais dados do levantamento de 2020:

  • Foram identificadas 702 startups Construtechs e Proptechs (do ramo imobiliário) ativas no Brasil ano passado;
  • Isto representa um crescimento de 23% em relação a 2019 e 180% em relação a 2017,quando Loretto fez o seu primeiro levantamento;
  • 33% das Construtechs e Proptechs brasileiras estão voltadas à jornada de Aquisição (intermediação, compra, venda ou locação de imóveis)
  •  31,5% estão voltadas a propriedades em uso, ou seja, imóvel já construído e habitado, seja comercial, residencial ou industrial;
  • 26,8% voltadas ao ambiente e execução de obra; 
  • 8,25% atuando na fase de projetos e viabilidade de obra.
  • Entre 2019 e 2020, 95 Construtechs e Proptechs encerraram atividades, isto é, uma taxa de mortalidade de 16,75% (bastante baixa);
  • Em primeiro lugar no número dessas startups aparece São Paulo (293), como era de se esperar, depois Santa Catarina (83) e Paraná (83) em terceiro. 


Imagem: Terracotta

Ao mesmo tempo que muitas das construtechs vão ter problemas ou até desaparecer com a atual crise, “outras terão seu negócios potencializado pela onda de transformação digital que ganhará ainda mais força”, aposta Loretto. 

Mas então, vamos ver o que as Construtechs estão fazendo pela produtividade das construtoras?

Elas impulsionam a produtividade das construtoras de diversas maneiras, a começar pelo aperfeiçoamento dos controles dos processos envolvidos, bem como de cada uma das etapas das obras.

Tem sido muito significativo também o empenho de muitas dessas startups em diminuir o desperdício de materiais e otimizar o aproveitamento dos insumos.

Além disso, com  o emprego de AI, BIM, Big Data e outros recursos da geração 4.0 estão dotando os empreendimentos de maior previsibilidade de imprevistos e maior capacidade de identificação de disfunções. 

Assim, aumenta também a resolutividade de problemas, na medida em que os gestores conseguem se antecipar a eles. Assim, conseguem garantir que as atividades transcorram no seu fluxo previsto ou até de forma muito mais rápida. 

Bons exemplos 

Um bom exemplo disso é a Logica-E, de Santa Catarina, administrada pelo especialista em sistemas digitais Bruno Bichels. 

Utilizando ferramentas da Internet das Coisas (IO) a empresa criou coletores de dados para identificar problemas de impermeabilização, umidade do solo e maturidade do concreto.

Veja como funciona: 

Um sensor dentro do concreto coleta dados a cada meia hora e monta gráficos sobre sua rigidez. Isto, segundo Bichels, garante para a obra pelo menos um dia de produtividade!

Outro case interessante, entre tantos que existem, é o da Ambar Tech, totalmente focada em construções inteligentes. Suas soluções estão voltadas para a modernização dos canteiros de obras, com o objetivo de construir de maneira simples e mais eficiente. 

Já a NetResíduos, uma startup de Belo Horizonte/MG, desenvolveu um software que realiza o gerenciamento total de resíduos para obras de construção civil, indústrias e hospitais. 

Este sistema garante o controle total de tudo que a empresa gerou, para onde foram os resíduos, quais eram os resíduos, quem transportou, o custo e toda a documentação do processo. 

“Em uma obra que utiliza o sistema, registramos uma economia média de R$ 40 mil, que pode ser sentida na redução do tempo de elaboração de relatórios, na análise, na melhoria do processo produtivo, na destinação dos resíduos”. (Henrique Ribeiro, um dos fundadores)

Métodos construtivos

Temos ainda as construtechs voltadas para métodos construtivos industrializados, que conseguem uma redução comprovada de 20% do tempo de construção. 

Neste caso, vale a pena você conhecer o trabalho da Tecverde Construções Eficientes, cuja tecnologia permite que 75% do processo construtivo seja feito numa fábrica. 

“Nossa fábrica é considerada a mais automatizada da América Latina e nosso processo de montagem é quatro vezes mais rápido do que a alvenaria convencional”, afirma a divulgação da empresa.

Também vale destacar a construtech Brasil ao Cubo, que vem chamando a atenção para sua inventividade e eficiência. Ela fabrica módulos 3D em estrutura metálica, que permite realizar obras também numa velocidade quatro vezes maior que pelos métodos tradicionais. 


Imagem: Hospital Independência

Ela já se destacou, inclusive, na fabricação rápida de hospitais no período da pandemia da Covid-19. Em Porto Alegre, construiu o Centro de Tratamento de Combate ao novo Coronavírus, anexo ao Hospital Independência, com 60 leitos, em  apenas 30 dias. 

Em São Paulo, a Brasil ao Cubo ergueu em apenas 33 dias (7 dias a menos que o previsto) o anexo do Hospital M’Boi Mirim, junto ao Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch, com 100 leitos! 

Virar a página com as construtechs

Já ingressamos na terceira década do Século 21 e, por incrível que pareça, ainda temos muitas organizações da construção civil, inclusive grandes empresas, ainda utilizando técnicas do século passado que já deveriam ter sido substituídas.

Está na hora do setor virar a página, definitivamente, pegar a onda das novas tecnologias e adotar as inovações que vão lhe garantir saltos de qualidade e produtividade.

As construtechs têm uma grande contribuição para dar neste sentido, como você viu. Conhecê-las, acompanhar seus lançamentos, avaliar suas propostas, é uma medida inteligente que os empreendedores mais avançados já estão adotando.

Espero que nesta publicação você tenha tido um forte vislumbre de tudo que essa nova frente de inovações pode oferecer para seus empreendimentos.

Em breve voltaremos ao assunto com mais detalhes, porque as novidades surgem a toda hora nessa área, aguarde!

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