• Ter um bom plano de cadastro, crédito e cobrança é essencial para alavancar as vendas na construção civil
  • É importante controlar as contas a receber para garantir que as vendas se reflitam no lucro da empresa
  • É fundamental seguir um roteiro com dicas para montar uma estratégia de crédito, transformar em vendas e manter o dinheiro em caixa.

Fechar vendas é o objetivo. Receber por elas é o negócio. Muitas construtoras e incorporadoras dedicam energia considerável ao processo comercial e negligenciam a etapa seguinte, que é a que realmente converte a venda em resultado: a gestão do crédito concedido, o controle das contas a receber e o processo de cobrança quando os pagamentos atrasam.

O resultado dessa negligência aparece no fluxo de caixa: obras que deveriam ser financiadas pelos recebíveis dos clientes passam a depender de capital de giro externo, com custo crescente. Em um cenário como o de 2025, em que os bancos reduziram em 49% os empréstimos para construtoras em comparação ao ano anterior, segundo a CBIC, ter a carteira de recebíveis organizada e a inadimplência sob controle deixou de ser boa prática e virou condição de sobrevivência.

Este artigo apresenta um roteiro prático para montar uma política de crédito, cadastro e cobrança que proteja o caixa da sua construtora sem comprometer as vendas.

Por que a política de crédito é estratégica, não operacional?

Oferecer crédito direto ao cliente é uma estratégia eficaz para acelerar vendas, especialmente em ciclos em que o crédito bancário está mais restrito ou caro para o comprador. Mas concessão de crédito sem política estruturada é risco assumido sem critério. E, no mercado imobiliário, onde os contratos têm valor elevado e prazo longo, os erros de avaliação de crédito custam caro.

Uma política de crédito bem estruturada resolve três problemas simultaneamente: protege o fluxo de caixa da empresa ao reduzir a inadimplência, organiza a carteira de recebíveis de forma que ela possa ser usada como garantia em operações de antecipação, e cria um processo de relacionamento com o cliente que reduz conflitos e facilita renegociações quando necessário.

Os três pilares da política são o cadastro, a análise de crédito e o controle de cobrança. Cada um deles precisa funcionar bem para que o conjunto entregue resultado.

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Etapa 1: cadastro completo e bem feito

O cadastro é a base de toda a política de crédito. Sem informações confiáveis sobre o cliente, qualquer análise subsequente fica comprometida. Mas há um equilíbrio a preservar: a ficha cadastral deve ser completa o suficiente para uma análise sólida e objetiva o suficiente para não afastar o cliente no momento da negociação.

O que a ficha cadastral deve conter

Para pessoa física, os dados essenciais são: nome completo, RG, CPF e data de nascimento; dados de contato completos (telefone, WhatsApp, e-mail e endereço); profissão, renda e nome da empresa empregadora; dados do cônjuge quando aplicável; referências pessoais e profissionais; banco principal com que opera; e patrimônio declarado, como imóveis e veículos. Informações sobre empregos anteriores e histórico de negócios com a empresa também têm valor.

Para pessoa jurídica, além do CNPJ e documentação societária, é necessário levantar o faturamento anual, a estrutura de capital, as referências comerciais e o histórico de relacionamento com bancos.

Documentação de comprovação

Além dos dados declarados, é preciso solicitar documentação que comprove as informações fornecidas. Para comprovação de renda servem: contracheque dos últimos três meses, declaração de Imposto de Renda do último exercício ou decore para autônomos, extratos bancários e escrituras de imóveis. Para comprovação de endereço: conta de água, luz ou gás recente.

A conversa vale tanto quanto o formulário

Um detalhe que a digitalização dos processos tende a eliminar, mas que faz diferença real: uma conversa bem conduzida com o cliente revela informações que nenhum formulário captura. Expectativas sobre o imóvel, situação familiar, mudanças de emprego planejadas, compromissos financeiros em curso. Oriente a equipe de atendimento a criar espaço para esse diálogo, especialmente com clientes que demonstram interesse em compra a prazo.

Alertas na conferência de documentos

Ao conferir a documentação, algumas situações merecem atenção redobrada: assinatura no documento de identidade diferente da assinatura na ficha cadastral; foto no RG que gera dúvida sobre a identidade; inconsistência entre o contracheque e as anotações da carteira de trabalho; e qualquer indício de adulteração como rasuras ou substituições.

Manutenção do cadastro

Cadastros têm validade. Clientes mudam de endereço, de emprego, de estado civil e de situação financeira ao longo do tempo. Manter os dados atualizados é condição para que o cadastro continue útil como instrumento de análise e para que a empresa possa contatar o cliente de forma eficaz quando necessário.

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Etapa 2: análise de crédito com critérios objetivos

Com o cadastro em mãos, a análise de crédito precisa ser conduzida com critérios objetivos e documentados, independentemente da simpatia do cliente ou da pressão para fechar a venda. É nessa etapa que o risco de inadimplência futura é identificado e precificado.

Consulta aos órgãos de proteção ao crédito

O primeiro passo é consultar o CPF do cliente no SPC, Serasa e SCPC para verificar se há restrições ativas. Uma restrição não encerra automaticamente a negociação, mas exige análise cuidadosa do histórico e das condições da dívida registrada. Restrições recentes ou de valor elevado são sinais de alerta relevantes.

Score de crédito

O score de crédito disponível nas plataformas do Serasa e do SPC é um indicador complementar importante. Ele agrega em uma pontuação o histórico de pagamentos do cliente, a regularidade de suas dívidas, o relacionamento financeiro com empresas e a atualização dos dados cadastrais. Pontuações mais altas indicam menor risco de inadimplência; pontuações baixas exigem análise mais detalhada das causas.

Comprometimento de renda

A parcela mensal a ser assumida pelo cliente não deve comprometer uma fatia excessiva da renda disponível. O parâmetro mais utilizado no setor é que os compromissos com financiamento imobiliário não ultrapassem 30% da renda mensal bruta, mas esse percentual pode ser ajustado com base no perfil do cliente e nos demais compromissos financeiros identificados no cadastro.

Se o cliente já tem financiamento de veículo, empréstimo consignado ou outras prestações relevantes, o limite efetivo de comprometimento disponível para o novo compromisso é proporcionalmente menor. Ignore esse cálculo e a inadimplência surgirá não por má-fé do cliente, mas por incapacidade financeira real.

Parâmetros da política de crédito

Uma política de crédito estruturada define com antecedência os parâmetros que vão orientar as decisões caso a caso. Os itens que precisam estar definidos são:

Parâmetro O que define
Prazo máximo de financiamento Número máximo de parcelas que a empresa está disposta a oferecer, conforme o tipo de produto e o perfil do cliente
Taxa de juros Percentual cobrado sobre o saldo devedor, alinhado à política de reajuste contratual e aos índices de correção adotados
Limite de comprometimento de renda Percentual máximo da renda mensal que pode ser comprometido com as parcelas do novo contrato
Critério para cliente novo Condições adicionais de análise para quem não tem histórico de relacionamento com a empresa
Garantias exigidas Tipo e valor das garantias reais ou pessoais que a empresa pode exigir conforme o nível de risco da operação
Instrumentos de crédito Formatos contratuais aceitos: contrato de compra e venda, instrumento particular, nota promissória etc.

Ter esses parâmetros escritos e comunicados à equipe comercial é o que evita decisões casuísticas que comprometem a política: o vendedor não pode aprovar crédito que supera o limite definido pela política porque acredita que o cliente vai pagar.

Etapa 3: controle de contas a receber e cobrança ativa

Uma política de crédito bem feita reduz a inadimplência, mas não a elimina. O controle permanente das contas a receber e um processo de cobrança estruturado são o que garantem que os recebimentos aconteçam conforme o previsto ou, quando não acontecem, que o problema seja tratado antes de se tornar insolúvel.

Controle centralizado de recebíveis

A empresa precisa ter visibilidade permanente sobre três dimensões da carteira: o total da dívida dos clientes, os valores vencidos e não pagos e os valores a vencer nos próximos períodos. Sem essa visão, o planejamento de caixa opera no escuro.

Planilhas funcionam para volumes pequenos. À medida que a carteira cresce, a dependência de planilhas manuais aumenta o risco de erro, dificulta a cobrança tempestiva e torna a análise de desempenho da carteira praticamente inviável. Sistemas de gestão com módulo específico de contas a receber, que automatizam a emissão de boletos, registram baixas automaticamente e geram alertas de vencimento, são o caminho para escalar a operação sem perder controle.

A régua de cobrança

O momento de agir em caso de atraso é o mais cedo possível, antes que a dívida se consolide e a situação financeira do cliente piore. Uma régua de cobrança define os passos e os prazos de cada ação, desde o primeiro contato até as medidas mais drásticas:

  • Vencimento: no dia do vencimento ou no dia seguinte, notificação automática por e-mail, SMS ou WhatsApp.
  • Até 10 dias de atraso: contato direto da equipe de cobrança para entender o motivo do atraso e negociar nova data. Nesse momento, é essencial registrar o motivo do atraso, o nome e cargo das pessoas contatadas e a nova data acordada.
  • Entre 10 e 30 dias: reforço da cobrança com formalização por escrito da negociação. Se possível, solicitar cheque pré-datado ou comprovante da transferência na data acordada.
  • Acima de 30 dias sem acordo: avaliação das medidas extrajudiciais disponíveis: inclusão no SPC/Serasa, protesto em cartório com comunicação formal ao devedor e acionamento das garantias contratuais ou dos fiadores.
  • Acima de 60 a 90 dias: avaliação do encaminhamento para cobrança jurídica. Antes de encaminhar, tente um acordo final: recuperar parte da dívida imediatamente é melhor do que ingressar em um processo que pode levar meses ou anos.

O que registrar em cada contato

Todo contato de cobrança precisa ser registrado: data, canal, nome do interlocutor, motivo alegado, acordo realizado ou ausência de retorno. Esse histórico tem dois valores práticos: orienta a próxima ação da régua de cobrança e serve de evidência em caso de processo judicial.

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O impacto da inadimplência no acesso a crédito da construtora

A inadimplência na carteira de clientes não afeta apenas o caixa imediato da construtora. Ela tem um efeito secundário menos visível, mas igualmente relevante: compromete a capacidade da empresa de acessar crédito externo para financiar novas obras.

Em um cenário em que os recursos do SBPE estão escassos e o crédito para a produção imobiliária segue restrito, construtoras e incorporadoras precisam cada vez mais recorrer a alternativas como antecipação de recebíveis, CRIs, fundos imobiliários e linhas de crédito estruturadas. Todas essas modalidades exigem que a empresa demonstre qualidade da carteira de recebíveis como evidência de risco.

O banco de dados do Sienge possibilita condições mais vantajosas de crédito porque fornece informações operacionais como visibilidade sobre contas a receber e ativos vinculados a contratos. Como resultado, o agente financeiro fica mais disposto a tomar riscos, porque tem mais informações e contexto sobre a empresa. Google Books

Uma carteira com inadimplência elevada, contratos mal documentados ou histórico de cobrança sem registro dificulta a aprovação de operações de crédito e, quando aprovadas, eleva o custo. Uma carteira organizada, com baixa inadimplência e histórico documentado, funciona como um ativo financeiro que pode ser mobilizado para financiar o crescimento da empresa.

O investimento em uma política de crédito estruturada, portanto, não é apenas proteção contra perdas. É construção de patrimônio financeiro.

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Organize os recebíveis e amplie o acesso a crédito

Uma política de crédito, cadastro e cobrança bem estruturada faz mais do que proteger o caixa da construtora. Ela transforma a carteira de recebíveis em um ativo financeiro que pode ser mobilizado para financiar novos empreendimentos, acessar linhas de crédito com melhores condições e crescer com mais previsibilidade.

Em um cenário de crédito mais restrito para o setor, construtoras e incorporadoras que têm a casa financeira em ordem saem na frente. O Sienge Capital foi criado para apoiar exatamente esse processo: desde a organização das operações financeiras até a conexão com as alternativas de crédito mais adequadas ao perfil de cada empresa.

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Assuntos: Capital Crédito para construtoras
Giovani Amaral do Sienge
Giovani Amaral do Sienge

Giovani Amaral é executivo formado em administração com MBA em administração global, tendo como principal característica o empreendedorismo e intraempreendedorismo. Apaixonado por pessoas e por desafios, atua há mais de 35 anos no segmento de TI, com passagens por grandes empresas nacionais de tecnologia. Sua expertise contribui para o fortalecimento da proposta de negócio do Ecossistema Sienge focada na integração de toda a cadeia da construção, com o objetivo de potencializar resultados para construtoras e incorporadoras, garantindo maior previsibilidade e eficiência operacional. Atualmente, é Diretor de Operações do Ecossistema Sienge.