Conheça as métricas indispensáveis para micro e pequenas construtoras

Dayvson Carvalho

Dayvson Carvalho

Gestor de Projetos. Graduado em Administração pela ESAG. Apaixonado por números, dados e estatística.

10 de julho 2020

O trabalho dos gestores na construção civil exige uma avaliação permanente do desempenho das suas empresas. E, para isso, as métricas ou indicadores são tão indispensáveis como o concreto para as obras.

Ainda mais num cenário nacional de tantas incertezas provocadas pela pandemia da Covid-19. Numa circunstância dessas, é fundamental que todas as engrenagens da sua linha de produção cumpram o que se espera delas.

É preciso buscar, mais do que  nunca, o  máximo de eficiência e produtividade, com qualidade.

Mas como você pode saber, realmente, se as mais diversas áreas da sua linha de produção estão aptas para isso? A resposta é: medindo, traduzindo em números o seu desempenho, e é disso que vamos tratar neste artigo. 

Por que as métricas são tão importantes na gestão?

As métricas são capazes de apontar tanto o estado de áreas sensíveis da sua empresa como também permitem uma avaliação global da situação. 

Isto é, se a construtora ou incorporadora está sob algum risco, se está sólida e estável, crescendo ou pronta para crescer e disputar fatias  maiores no  mercado.

Computador com métricas de gestão

Para tanto, já existe um acúmulo bastante grande de conhecimento nessa área, acessível e aplicável por todas as empresas, inclusive as de menor porte. 

Você já deve conhecer algumas métricas, mas precisa organizá-las como termômetros que registram a saúde do seu  negócio. 

Nós temos, basicamente, métricas de avaliação financeira, de obras e de pós-venda. Vamos aos exemplos mais importantes.

Principais métricas financeiras

As métricas financeiras apresentam números que permitem tanto avaliar a situação atual das suas finanças como a capacidade de geração de lucro dos negócios. Veja quais são algumas das principais:

ROI – Retorno Sobre Investimento

O Retorno sobre investimento (ROI) é um indicador que aponta a relação entre o lucro líquido e o custo do investimento resultante da aplicação de recursos.

Ele é usado para avaliar a eficiência de um investimento ou para comparar a eficiência de vários investimentos diferentes. Então, para calcular o ROI, subtrai-se o ganho alcançado pelo investimento inicial. 

Depois, esse resultado é dividido pelo investimento inicial. Assim:

ROI = (Ganho obtido – Investimento inicial) / Investimento inicial.

Esse indicador ajuda você a planejar seus próximos empreendimentos, pois identifica no que é necessário investir, cortar, ajustar, para garantir um ROI mais favorável.

Fluxo de Caixa

É um dos indicadores  mais conhecidos e elemento obrigatório nas análises financeiras, mas costuma ser também uma das deficiências mais frequentes das organizações, principalmente nas micro e pequenas construtoras

O fluxo de caixa deve expressar a consolidação das entradas e saídas financeiras da empresa e assim mostrar a necessidade de aumento de receitas ou redução de despesas.

Nas empresas menores, com poucos recursos humanos, o fluxo de caixa muitas vezes é administrado sem os devidos cuidados. Assim, vira um fator que compromete as finanças e a competitividade da organização.

Porém, um fluxo de caixa bem administrado traz como principais vantagens:

  • antecipar possíveis situações críticas ao negócio, como pagamentos adiante que precisam ser provisionados ou renegociados com antecedência. 
  • facilitar o planejamento da empresa, tais como contratações, dispensas, encomendas de material, investimentos.
  • evitar problemas com fornecedores, por falta de pagamentos e atrasos desnecessários.
  • identificar melhor os encargos e despesas excepcionais da folha de pagamentos.
  • manter os tributos em dia e evitar situações desagradáveis com o fisco por falta de previsão.
  • garantir que os processos internos estão andando corretamente,  pois se está tudo ajustado o fluxo de caixa também deverá estar e vice-versa.
  • estar preparado e organizado para os imprevistos, com um bom fluxo de caixa é mais fácil passar por situações difíceis.

EBITDA

Esta sigla significa a apresentação dos lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização, que seria “Lajida” em português, ou EBITDA na sigla em inglês. 

Gráfico com métricas de gestão

Para se chegar ao EBITDA de uma empresa, é preciso fazer a seguinte conta:

Lucro bruto menos as despesas operacionais, excluindo-se destas a depreciação e as amortizações do período e os juros.

Dessa forma, é possível avaliar o lucro referente apenas ao negócio, descontando qualquer ganho financeiro, como derivativos, aluguéis ou outras rendas que a empresa tenha tido. Também são retirados do cálculo EBITDA os juros dos empréstimos que muitas vezes as empresas contratam para alavancar as suas operações.

Sua utilização fornece uma boa análise comparativa, pois mede a produtividade e a eficiência do negócio.

Como percentual de vendas, pode ser utilizado para identificar empresas que sejam mais eficientes dentro de um segmento de mercado. Tem como função, também, determinar a capacidade de geração de caixa operacional da empresa.

Margem de contribuição

A margem de contribuição indica o que sobra de receita da venda de um produto, após retirar o valor dos gastos variáveis, que é composto por custo variável e despesas variáveis. 

Você precisa saber disso porque seu negócio pode estar vendendo bem, mas sem ter lucro e com esse dado essa dúvida fica esclarecida.

Na verdade, é relativamente fácil de se apurar o valor e o percentual respectivo da margem de contribuição. 

Veja a origem do nome, pois assim fica mais fácil de entender seu significado:

Margem – é a diferença entre o valor da venda e os valores dos custos e das despesas específicas destas venda, também conhecidos por custos variáveis e despesas variáveis da venda.

Contribuição – representa quanto o valor das vendas contribui para o pagamento das despesas fixas e também para gerar Lucro.

Então, para encontrar a Margem de Contribuição, é preciso realizar a seguinte conta:

Margem de Contribuição = Valor das Vendas – (Custos Variáveis + Despesas Variáveis)

Principais métricas de obras

Continuando a nossa relação de métricas, temos a seguir aquelas ligadas mais diretamente à administração das obras. 

Elas compreendem indicadores, também conhecidos como KPIs (Key Performance Indicators em inglês) que são essenciais na avaliação do trabalho nos seus canteiros construtivos. Agora você vai conhecer os principais indicadores desse tópico.

Acidentes de trabalho

A construção civil é um dos setores onde mais acontecem acidentes e disso decorrem muitos dos afastamentos de trabalho. Por isso as empresas precisam dar prioridade absoluta à segurança nos canteiros. Em primeiro lugar, ppara garantia a vida e a saúde de seus colaboradores.

Mas também para evitar afastamentos frequentes, atrasos, prejuízos resultantes de multas e indenizações devido a descuidos neste quesito. Por isso, a empresa precisa fazer, periodicamente, o levantamento do número de acidentes, das áreas onde aconteceram e das horas de trabalho subtraídas por essa razão. Isso vai ajudar muito com a prevenção de acidentes no canteiro de obras.

Custos do desperdício

Eis um dos principais vilões na composição dos custos das construtoras, pois ainda é muito grande a perda de materiais em cada etapa das obras, do transporte à sua execução. 

Uma pesquisa da Escola Politécnica da USP revelou que o índice de perdas de materiais consome de 3% a 8% do total investido nos empreendimentos. Isso é mais grave ainda se levarmos em consideração que a margem de lucro é de 10% a 15%.

Entre os diversos indicadores de perdas na Construção Civil, o Norie – Núcleo Orientado para a Inovação da Construção da UFRGS – ressalta os seguintes: 

  • percentual de material adquirido em relação à quantidade realmente necessária. 
  • espessura média de revestimentos de argamassa. 
  • tempo de rotação de estoques.
  • percentual de tempos improdutivos em relação ao tempo total.
  • horas-homem gastas em retrabalho em relação ao consumo total.  

Impactos ambientais e sustentabilidade

Numa sociedade cada vez mais exigente com a preservação do meio ambiente, os empreendedores do setor devem ficar atentos à sustentabilidade das suas obras.

Afinal, a construção civil é uma das atividades econômicas que mais causam impactos ao meio ambiente. Por esse motivo, está sempre sob o olhar atento dos órgãos de fiscalização, da mídia e ONGs ambientalistas.

Por outro lado, obras sustentáveis ganham uma atração extra para uma clientela bastante preocupada com essa questão. É preciso considerar ainda que a sustentabilidade traz redução de resíduos no canteiro de obras, eliminação de retrabalhos e práticas que trazem má qualidade  ao produto final.

 Segundo o Green Building Council Brasil (GBC), que certifica edificações sustentáveis no mundo todo, a média de reduções de custos com projetos sustentáveis no País é a seguinte:

 

Indicador de redução de custos com obras sustentáveis no Brasil

Eis, então, alguns indicadores que você deve considerar neste item:

  • eficiência energética – variação da energia consumida por dia trabalhado.
  • gestão da água – quantidade de água utilizada por dia.
  • manejo de resíduos – quantidade de resíduos por metro quadrado
  • materiais e recursos certificados – comprovação da origem ambientalmente correta, como o madeirame.
  • qualidade ambiental interna – conforto térmico e acústico do empreendimento.

Indicadores de produtividade

A produtividade na construção civil significa a eficiência na transformação dos insumos envolvidos, materiais, mão-de-obra, equipamentos e outros recursos nos seus produtos.

Para calcular tais indicadores a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) lançou um manual explicando o conceito e as formas de cálculo de produtividade. 

Em construção, diz o manual da CBIC, é comum falar-se no estudo da produtividade dos principais recursos físicos utilizados: mão-de-obra e materiais.  Assim, é preciso fazer o cálculo da produtividade da mão-de-obra e consumo unitário de materiais.

Sua fórmula básica é:

Fórmula de indicador de produtividade
Quanto ao indicador adotado para a mensuração da produtividade da mão-de-obra, ele se denomina razão unitária de produção (RUP), que é calculado da seguinte forma:

Métrica para razão unitária de produção

No caso do da produtividade de materiais, utiliza-se o indicador CUM, que significa Consumo Unitário de Materiais: 

Métrica para custo unitário de materiais

Métricas de custos

Medir com precisão os custos de um projeto permite avaliar se os gastos estão dentro do previsto inicialmente, se aconteceram alguns imprevistos ou se há alguma falha na gestão que permite gastos maiores do que o esperado.

Para alcançar melhores resultados neste quesito é importante que o gestor racionalize os gastos através do gerenciamento de estoques.

Você consegue isso, muito mais facilmente, automatizando os processos através de um software de gestão, por exemplo, promovendo maior lucratividade aos empreendimentos.

Métricas de pós-venda

Neste caso, são métricas que avaliam o grau de satisfação do cliente com a finalidade de saber o que precisa melhorar nesse relacionamento. Descobrindo os pontos fracos da sua empresa, se existem, você deve criar um plano de ação para abordá-lo. As principais métricas de pós-venda são:

NPS – Net Promoter Score

Esta é uma pesquisa bem rápida que você pode fazer com os clientes em qualquer canal de comunicação que achar melhor, até mesmo Whatsapp, com apenas uma pergunta:

“De 0 a 10, qual a chance de você recomendar recomendar nossos serviços para um conhecido?”

Cada nota significa o seguinte:

  • 0 a 6 – detratores: de modo geral, a vida dessas pessoas piorou depois da compra. Não gostam da empresa e dificilmente fariam negócios com ela de novo.
  • 7 a 8 – neutros: compram o que acham necessário, sem qualquer apego ou lealdade à empresa.
  • 9 a 10 – promotores: são os que tiveram maior melhora de vida depois da compra. São entusiastas da empresa e podem recomendar o serviço a várias pessoas.

Recomendações de compra

Uma coisa é a pessoa dizer que recomendaria seus serviços, outra é ela realmente recomendar. Para ter confiabilidade nessa informação, você pode utilizar duas formas de saber quantas recomendações de compra seus clientes fazem.

A primeira é fazer uma ampla pesquisa com sua base de clientes e perguntar se já recomendaram seus produtos e serviços a alguém.

Outra forma é incluir, no processo de venda, uma pergunta simples para o novo cliente: “Como você conheceu nossa empresa?”, com a opção de dizer que foi por recomendação de algum cliente atual.

Compras repetidas

Por fim, o grau mais alto de satisfação acontece quando alguém compra novamente um imóvel de você. Isso significa que a pessoa ficou tão satisfeita que resolveu voltar a procurar sua empresa quando teve a chance.

Em um setor como a construção civil, é normal que as compras repetidas sejam menos comuns que as recomendações. Afinal, imóveis duram muito tempo e nem todo mundo troca de casa quando tem a chance.

Ainda assim, vale a pena acompanhar esse índice de repetição de compras, especialmente se a sua construtora ou incorporadora  tiver produtos complementares. Tenha sempre anotado quem e quantos são esses clientes e o que eles mais destacam positivamente na sua empresa.

Definição das métricas e disciplina

Estes são bons exemplos de métricas que você pode adotar, mas existem muitas outras aplicáveis à construção civil. O importante é o gestor definir com  quais vai trabalhar e ser muito disciplinado na coleta e avaliação dos dados.

Com isso você vai ter dados concretos e confiáveis para poder avaliar melhor seus projetos e assim ter uma gestão mais organizada. Desta forma, também vai estar em melhores condições de planejar seus investimentos e fazer a empresa crescer.

Gostou de aprender as principais métricas para micro e pequenas construtoras e como usar cada uma delas? Deixe seu comentário e compartilhe com seus amigos, pode ser útil para eles também!